Custa dizê-lo, mas parece mais proveitoso ao artista esse anseio frustrado por isolamento, que tem de aceitá-lo inviável e digladiar-se num cotidiano aparentemente inimigo, do que o isolamento efetivo, pleno e consumado. No primeiro caso, temos um espírito energizado pela circunstância; no segundo, um incentivo à inércia. No primeiro caso, um esforço que renova e justifica o anseio, que faz com que o artista valorize muito mais o isolamento quando parcialmente alcançado — porque esta é a verdade: seu anseio, na pior das hipóteses, pode sempre ser alcançado parcialmente, e com melhor proveito do que se pode supor.
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A narrativa ficcional realista e objetiva…
A narrativa ficcional realista e objetiva, se carregada e praticada como dogma, acaba privando o escritor desta verdadeira delícia que é o estilo, visto que, por definição, ser realista e objetivo é adotar, por assim dizer, um “estilo impessoal”. Mas esta delícia, experimentada pelo poeta, pelo filósofo, pelo historiador e por quem quer que compreenda o elemento individual necessário à escrita, e sem o qual a obra é desprovida de elo com a realidade apreendida em primeira pessoa, é também um incentivo inigualável ao apuro da expressão. A satisfação de moldar as palavras é a satisfação com a liberdade de dizer as coisas tal como nos pareça melhor.
Antes de converter-se numa obsessão…
Antes de converter-se numa obsessão ou num requinte fútil, deter-se na forma é respeitar o valor daquilo que se tenciona expressar. É não querer apresentá-lo com desleixo, e sim de maneira que lhe faça jus. Portanto, é uma preocupação natural àquele que não se divirta despejando palavras ao vento, e trabalha com matéria de importância verdadeira e pessoal.
O ateísmo conduziu o homem moderno a uma desorientação…
O ateísmo conduziu o homem moderno a uma desorientação tão extrema que resgatar as noções mais básicas de sua condição humana é obra que já se não completa em umas poucas gerações. O estado é calamitoso a ponto de que nem a literatura pode prestar-se a uma retratação realista e integral da sociedade hodierna, sob pena de ser desabridamente rejeitada pelas gerações futuras por ter extrapolado o absurdo mesmo se consideradas as possibilidades ficcionais. Esta é uma situação talvez inédita, em que é preciso ignorar o grosso da realidade para se fazer literatura duradoura. Há coisas que não se dizem numa mesa, e há coisas que não se escrevem.