Vai-se outro ano, e mais um punhado de páginas prontas para envelhecer. É prazeroso despegar-se e abandoná-las, esquecê-las, e assim livrar-se da obrigação que a elas acorrentava. Mais do que isso: é prazeroso ver que, agora, é o hábito aliado, e já se foram as incertezas e oscilações pregressas. Há um corpo que se amplia, se completa; e apenas por havê-lo pode-se distanciar e apreciar melhor as páginas recentes. Estabilizou-se a empolgação em bom nível, e o futuro menos preocupa que o presente. Basta continuar…
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Olhar para trás e sorrir
Afinal, o que importa é olhar para trás e sorrir. É analisar a obra e julgá-la, se não boa, justa. E ver que a intenção não se corrompeu, e que não se fugiu do que havia de ser feito, e que se fez. Se a obra feita ora desagrada, se não se afina com o hoje, é também bom, porque a mudança é boa e é bom aprender. Só importa olhar para trás e sorrir.
Com os termômetros beirando os quarenta graus…
Com os termômetros beirando os quarenta graus, é difícil decidir por escrever, ou estudar, ou qualquer coisa em vez de enviar súplicas ardentes a Deus para que queime logo tudo e encerre este mundo de uma vez. Primavera, primavera… oh, sua detestável! E ainda que se busque inspiração para vencer a angustiante sensação térmica, ela não vem, porque é preciso, antes, tomar outro banho, beber mais e mais água, repousar na esperança de que o corpo refresque e, assim, seja possível tornar a pensar. Talvez seja por isso que já disseram muitas vezes que, para florescer, é no clima temperado que o intelectual se deve instalar. O tropical é-lhe inimigo, posto que lhe acentua as sensações e o impele a… Florescer, Deus, florescer! Suma destas linhas, verbo intruso…
Variar o estilo
Se não necessário, é no mínimo saudável que o escritor varie periodicamente o estilo, o formato, o gênero aos quais conforma as ideias que tem. Assim é por inumeráveis motivos, a começar por quão estimulante é o fazê-lo, e também pela tomada gradual de consciência das possibilidades expressivas que jamais se esgotam. Mais do que isso: neste exercício, descobre-se que há lugares mais adequados para ideias e ideias, e evita-se o ter de misturá-las todas — porque certamente virão variadas na mente criativa — num só formato. O melhor, pois, é variar como Voltaire; e é bom que o escritor o tenha em mente, caso assim não proceda espontaneamente.