A pausa obrigatória no fim do verso

Se um poema é declamado sem que se respeite a pausa obrigatória no fim do verso, pausa que caracteriza o próprio discurso poético, esconde-se do ouvinte sua estrutura. Fazendo-o, é impossível que o ouvinte diferencie o verso branco do livre, e ambos da prosa. É impossível, também, que distinga um verso metrificado, e muito menos que defina em qual metro foi construído, salvo, nalguns casos, pela rima. Ignorar a pausa no fim do verso é anular o distúrbio estrutural intencional gerado por cavalgamentos; portanto, é anular-lhes o próprio efeito. É ocultar a harmonia — ou a falta dela — resultante da disposição dos termos oracionais nos versos. Quer dizer, se um poema é lido tendo a pontuação como única referência, ele é lido como prosa. E um poema lido como prosa é, simplesmente, transformado em prosa. Convém refletir: fosse esse o objetivo, bastaria que o poeta escrevesse em prosa aquilo que, intencionalmente, optou por estruturar em versos — o que lhe acarretou, esperamos, um considerável esforço adicional.

Os distintivos de Soljenítsin

Há três principais diferenças entre Soljenítsin e o resto daqueles que defendem uma causa pela literatura, ou fazem literatura para defender uma causa. A primeira delas é que Soljenítsin, antes de atacar o regime que ataca, experimentou-o, isto é, sofreu-o com oito anos de cadeia e vendo inumeráveis amigos, conhecidos e familiares presos, perseguidos e fuzilados. A segunda diferença deriva da primeira: em honra própria e daqueles que perdeu, está justificada a sua causa; quer isto dizer que sua literatura é uma resposta à sua experiência pessoal, ou seja, sua motivação literária é a mais autêntica que pode haver. Por último, o seguinte e simplesmente: sua causa é nobre, e este adjetivo não carece de explicações. Do outro lado, que encontramos na maioria daqueles que fazem literatura ideológica? Não é preciso gastar muitas palavras: não encontramos nem a nobreza, nem o conhecimento de causa; encontramos, em suma, um fetiche.

Quando, há quatro anos…

Quando, há quatro anos, senti estar pronto para escrever, ou melhor, senti que já não era possível protelar o início dos trabalhos, estipulei um prazo e um número de obras que serviriam de preâmbulo para aquilo que eu tencionava fazer. O objetivo era dispersar, por gêneros e estilos, temáticas predefinidas, mais expondo problemas que apresentando soluções. Neste ano, o prazo chega ao fim, e alcanço-o com a certeza de que o que foi feito, quer melhor ou pior que o planejado, está feito e é suficiente. Agora, é força mudar, simultaneamente, o passo e a direção.

Mais um voluminho escrito…

Finalmente, mais um voluminho escrito, pronto para a revisão. Este, parece, o mais penoso entre todos; em prosa, sem dúvida o que saiu mais lentamente, menos espontâneo e mais compelido e, assim, outro rebento desta poderosa obrigação. Muitas coisas vêm à mente agora que, após quatro anos de trabalho ininterrupto, as linhas, embora não excessivamente abundantes, embora em menor quantidade que a planejada, já são alguma coisa. Alguma coisa que representa a concretização de umas boas centenas de horas de trabalho, de esforço concentrado e de luta interior. As palavras não parecem mais flexíveis do que antes; parecem, pelo contrário, mais pesadas, como se o tempo não tivesse senão acentuado a responsabilidade no escolhê-las. O sentimento não é de alívio, nem de satisfação com o trabalho concluído; há, simplesmente, a certeza de que é preciso continuar.