São indescritíveis estes momentos…

São indescritíveis estes momentos em que a mente deflagra semanas de trabalho criativo num único rompante. É incrível como as ideias brilham com clareza e vão se amontoando rapidamente em frases, que se tornam páginas, até um ponto em que cessam não por se haverem esgotado, mas para que os olhos possam admirar, incrédulos, o quão produtiva foi a sessão de trabalho. Tudo impressiona, desde a espontaneidade à abundância da manifestação, que se dá sem que o espírito pareça se esforçar como de hábito, e consequentemente se dá e não gera cansaço. Alguns artistas já disseram que tal experiência assemelha-se a um estado de semilucidez, em que como uma força alheia ao próprio controle parece fazer o trabalho. Talvez semilucidez não seja o termo mais apropriado, visto que em tais momentos dá-se uma sensação pulsante de epifania, e a mente parece lúcida e límpida como nunca esteve. E então, por raros que são, é aproveitá-los ao máximo, alegrando-se por quanto durem e sabendo que nem sempre eles estarão à disposição…

A representação da realidade

A representação da realidade parece mesmo o exercício literário essencial; quer dizer, deixando de lado as teorias estéticas, simplesmente transformar em literatura a experiência ou a observação. Com o tempo, ficam evidentes os limites que a própria realidade oferece, e então o artista poderá optar por dar um passo adiante. É curioso observar que as obras mais altas são frequentemente originárias desta motivação: alcançar pela arte aquilo que a realidade não permite. Parece haver, nos artistas tomados por esta obsessão, um ponto na vida em que a realidade se esgota, ou no mínimo torna-se insuficiente. Daí que todo o treinamento prévio é empregado a tornar a criação mental uma realidade literária tão patente quanto aquela motivada pela experiência direta. E ver que, em muitos casos, a primeira ainda consegue se sobressair.

O que há de mais caro

Ao artista, assim como as experiências lhe são úteis à medida que lhe influenciam a obra, é errôneo lhes querer julgar a importância como se faria de praxe com um homem comum. Seja a arte tida como a representação da realidade ou a criação de uma realidade alternativa, nela o artista porá aquilo que realmente lhe importa, aquilo que, transformado em arte, representa-lhe o que há de mais caro e digno desta cristalização. Portanto, será quase sempre absurdo querer enxergar como determinante no artista algo que sua própria obra recusa-se a nos dizer.

Pessoa: uma biografia, de Richard Zenith

Esta biografia de Fernando Pessoa assinada por Richard Zenith dificilmente será superada por aquelas que porventura a sucedam. Em primeiro lugar, temos aqui um profundo conhecedor da obra, e não somente da vida de Pessoa. Parece óbvio dizê-lo, embora talvez não seja tão óbvio que a mais complexa tarefa em se fazer uma biografia de um intelectual consiste em narrar-lhe a trajetória intelectual. Para um artista como Fernando Pessoa, que tinha na própria multiplicidade sua maior virtude, a empreitada torna-se arriscadíssima. Mas Zenith a encara e apresenta-nos uma visão serena dos meandros da evolução intelectual do poeta, sem cair na tentação de conformar o biografado à sua interpretação pessoal. Os capítulos estão inteligentemente organizados e a narrativa, a princípio cronológica, permite-se avançar e retroceder no tempo, quando assim a temática demanda. E então vemos os detalhes, os belos detalhes que somente adquirem a devida importância quando contextualizados por um biógrafo competente, como a honrosa e comovente homenagem ao tio Cunha e sua inestimável contribuição em instigar divertida e criativamente a imaginação do pequeno poeta. Pessoa: uma biografia é uma obra digna dos mais sinceros elogios, e cujo autor provou-se merecedor de agradecimentos que ainda se estenderão por muitas gerações.