É preciso escrever regularmente…

É preciso escrever regularmente para que o hábito automatize a reafirmação do voto e o espírito não sucumba aos perigosíssimos lapsos nos quais a literatura parece insuficiente e a motivação se esvai ante a aflição de escrever ou, antes, ante a aflição de existir. O escritor não pode permitir que a limitação da vida transmita a ilusão de que a literatura é também limitada. É preciso que enxergue nesta justamente o que aquela carece; portanto, transformando a ocupação não somente num refúgio, mas na solução do problema de existir.

Toda essa aflição experimentada pelo escrito…

Toda essa aflição experimentada pelo escritor sério poderia ser mitigada caso para ele fosse possível prometer-se e enganar-se, a cada nova obra, que após completá-la deixaria de escrever. Portanto, enxergar a obra presente como a última, sempre. Assim, a ilusão do alívio posterior daria forças para que o penosíssimo trabalho do momento não afligisse, e sim motivasse por ser o derradeiro de um espírito que está a um passo de descansar. Lamentavelmente, isso não é possível. O que é possível é enxergar em desalento o quanto ainda se tem por fazer, é sentir-se aprisionado ao dever, obrigado a forçar linhas que recusam-se a sair, e então fritar-se num processo terrível do qual a satisfação é estranha e o resultado é sempre a mesmíssima aflição.

Farias Brito é um desses homens cuja biografia…

Farias Brito é um desses homens cuja biografia acentua sobremaneira a emoção — e não há outra palavra — que experimentamos em contato com suas obras. É impossível não se comover, e não ser tomado da mais profunda admiração ao constatar que estas, mais do que o valor que possuem como obras, representam uma vitória extraordinária sobre as circunstâncias que pareciam condenar o filósofo a jamais sê-lo, a jamais sequer pensar em sê-lo. Pensamos no menino, e em seguida vemos o homem. Lemos e relemos a prova material do impossível, e então somos obrigados, pela honra, a deixar de lado todas as questões supérfluas e saudar, num grito de reconhecimento e consideração, o espírito que se provou valoroso pela vida e eternizou-se pelo exemplo de superação.

Diz-se que a arte consiste na proporção e na ordem…

Mais uma de Farias Brito:

Diz-se que a arte consiste na proporção e na ordem, e é possível que esteja realmente aí uns dos seus segredos. Mas seria erro supor que nisto consiste todo o seu poder. A proporção e a ordem são, dentro de certos limites, condições da beleza estética; mas são apenas condições exteriores. Há, porém, para completá-la, na sua verdadeira significação, um elemento mais profundo, de sentido puramente interno, que não se poderá explicar simplesmente pela proporção ou pela medida, como por quaisquer outros processos externos. É esse elemento oculto, misterioso, inexplicável, pelo qual a obra d’arte nos impressiona docemente, fazendo sonhar e ver cousas longínquas, esse poder maravilhoso e incompreensível, com que as cousas mais simples fazem, muitas vezes, surgir, como de improviso, sentimentos estranhos que dormiam ignorados nas profundezas d’alma. Lágrimas rebentam, em certos momentos, instintivamente, violentamente e sem que possamos contê-las, por ocasião de uma emoção estética profunda. Tudo se anima, tudo se torna espiritual e humano. E de tais formas, de tais complicações e modalidades de sentimento é capaz o homem, que a natureza inteira se torna, muitas vezes, por assim dizer, pequena, em face do mistério e da grandeza infinita da vida interior. Seria, porém, absurdo tentar explicar tudo isto por processos puramente mecânicos. Os artistas têm deste fato a clara compreensão. Mas os psicólogos de gabinete, não; preocupados com a ideia de dar a interpretação objetiva dos fatos psíquicos, deslocam os dados naturais do problema, e tentam uma cousa em verdade impraticável: — localizar o que é independente do espaço e não se pode conceber como corpo, traduzir na linguagem dos fatos objetivos o que só se pode explicar e compreender como modificação puramente interna, como fato subjetivo, numa palavra: objetivar a consciência. Era como se se pretendesse, por exemplo, representar a figura material da dor ou fazer o desenho de um gemido: o que, aliás, é possível mas apenas simbolicamente. Quem tal tentasse, porém, faria obra d’arte e não de ciência: o que prova que a arte tem mais poder que a ciência. A ciência, de si mesma, devendo ser a interpretação pura e simples da realidade, ficaria fora de seu próprio domínio, se recorresse a processos semelhantes de representação simbólica.

Se consistisse na proporção e na ordem a essência da arte, teríamos uma impressão mais forte lendo uma partitura que escutando-a executada. Não haveria motivo para comparecer fisicamente a uma orquestra, ou visitar fisicamente um museu. Teríamos, aliás, uma impressão muito mais potente se lêssemos análises acadêmicas de todas as obras, em vez de apreciá-las diretamente. Tais são os absurdos que têm de enfrentar aqueles que não enxergam na realidade senão aspectos exteriores, mensuráveis, previsíveis e passíveis de racionalização. E se assim fazem, ou julgam-se compelidos pela razão a fazer, serão para sempre iludidos e terão de se contentar com os medíocres resultados da incompreensão.