Há três principais diferenças entre Soljenítsin e o resto daqueles que defendem uma causa pela literatura, ou fazem literatura para defender uma causa. A primeira delas é que Soljenítsin, antes de atacar o regime que ataca, experimentou-o, isto é, sofreu-o com oito anos de cadeia e vendo inumeráveis amigos, conhecidos e familiares presos, perseguidos e fuzilados. A segunda diferença deriva da primeira: em honra própria e daqueles que perdeu, está justificada a sua causa; quer isto dizer que sua literatura é uma resposta à sua experiência pessoal, ou seja, sua motivação literária é a mais autêntica que pode haver. Por último, o seguinte e simplesmente: sua causa é nobre, e este adjetivo não carece de explicações. Do outro lado, que encontramos na maioria daqueles que fazem literatura ideológica? Não é preciso gastar muitas palavras: não encontramos nem a nobreza, nem o conhecimento de causa; encontramos, em suma, um fetiche.
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Quando, há quatro anos…
Quando, há quatro anos, senti estar pronto para escrever, ou melhor, senti que já não era possível protelar o início dos trabalhos, estipulei um prazo e um número de obras que serviriam de preâmbulo para aquilo que eu tencionava fazer. O objetivo era dispersar, por gêneros e estilos, temáticas predefinidas, mais expondo problemas que apresentando soluções. Neste ano, o prazo chega ao fim, e alcanço-o com a certeza de que o que foi feito, quer melhor ou pior que o planejado, está feito e é suficiente. Agora, é força mudar, simultaneamente, o passo e a direção.
Mais um voluminho escrito…
Finalmente, mais um voluminho escrito, pronto para a revisão. Este, parece, o mais penoso entre todos; em prosa, sem dúvida o que saiu mais lentamente, menos espontâneo e mais compelido e, assim, outro rebento desta poderosa obrigação. Muitas coisas vêm à mente agora que, após quatro anos de trabalho ininterrupto, as linhas, embora não excessivamente abundantes, embora em menor quantidade que a planejada, já são alguma coisa. Alguma coisa que representa a concretização de umas boas centenas de horas de trabalho, de esforço concentrado e de luta interior. As palavras não parecem mais flexíveis do que antes; parecem, pelo contrário, mais pesadas, como se o tempo não tivesse senão acentuado a responsabilidade no escolhê-las. O sentimento não é de alívio, nem de satisfação com o trabalho concluído; há, simplesmente, a certeza de que é preciso continuar.
A melhor solução para vencer…
Sem dúvida, a melhor solução para vencer o penosíssimo trabalho de revisão é a de Fernando Pessoa: não revisar nada, nunca, e jamais se propor a tarefa de dar uma forma definitiva para aquilo que se escreveu. Tão óbvio, tão evidente… e ainda assim parece a mais disparatada das decisões. Se toda profissão tem suas agruras, algumas só suportáveis a longo prazo por aquele dotado de vocação para exercê-la, ao escritor talvez nenhuma seja mais frequente que o deparar-se com um trabalho ruim. Diferentemente de outras profissões, em que o resultado e a eficácia do trabalho são facilmente mensuráveis, e daí portanto mais facilmente se percebe uma evolução na técnica e os efeitos positivos da experiência, o trabalho do escritor parece sempre fadado a ser visto como insatisfatório por suas próprias lentes, algo que se torna violentamente evidente no processo de revisão. Revisando textos longos, aprende-se que os erros mais elementares, na escrita, são invencíveis, porque, entre outros variados motivos, a atenção nunca se mantém constante por um longo período. E assim que, para a sua satisfação psicológica, o melhor é que o escritor jamais revise; do contrário, será forçado a tomar regularmente duríssimas lições.