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O poeta moderno, adepto das práticas…
O poeta moderno, adepto das práticas em voga de exterminar a pontuação dos versos, alterar grafias, ignorar maiúsculas, desenhar com letras, repetir palavras exaustivamente, etc., etc. tem de concentrar-se muito para não se passar por uma criança ou, em casos mais graves, por um retardado mental. Como pouquíssimas páginas bastam para enjoar de tais artifícios! Depois, ficamos a perguntar: e que mais? Frequentemente, temos de concluir que não passam eles de disfarces para uma incapacidade de se trabalhar palavras de maneira dinâmica e interessante, mostrando domínio e valendo-se criativamente dos recursos que oferecem o idioma. Acabamos por refletir naquilo que tanto repetem os latinistas, e parece mesmo a inteligência estar relacionada à habilidade na articulação da linguagem…
A evolução da poesia de Manuel Bandeira
A evolução da poesia de Manuel Bandeira descreve, muito mais do que uma rebeldia estética, uma busca por autenticidade, um despojamento progressivo de adornos a fim de centrar-se no fundamental. É uma poesia que mais buscou livrar-se de artificialidades que inventar outras novas; uma poesia íntima, pessoal e sincera, original antes pela expressão de uma individualidade que pela forma — a forma, esta que o próprio Bandeira expressamente taxou de secundária e que parece, a alguns, constituir-lhe a essência da criação poética. É por isso que não se imita Bandeira: para fazê-lo, seria preciso sê-lo; uma honra que felizmente não será concedida a ninguém.
Análises acadêmicas de poemas
Parece haver algo de errado, contraproducente e absurdo nestas análises acadêmicas de poemas, que dissecam os versos a ponto de ressaltar o efeito expressivo de cada uma das letras que lhes compõem as palavras. O contrassenso salta aos olhos quando defrontamos o resultado: infinitos parágrafos que mais escondem a essência dos versos que a elucidam. É curioso: enxergam estes acadêmicos antes aliterações, antes assonâncias que o próprio sentido das palavras que leem. Não há negar que tais recursos expressivos por vezes reforçam uma ideia; mas é isto que fazem: reforçam, resumindo-se a auxiliares. Chega a ser ridículo querer enxergar o analista intenção expressiva em sibilantes quando o autor limitou-se a usar palavras no plural, para não mencionar exemplos piores. Que é isso? Por fim, ficamos com a sensação de que o que há é uma tentativa de idealização do fútil em detrimento do essencial.