Há linhas que, ainda que nos pareçam repletas de absurdos, conduzem-nos o pensamento a áreas interessantíssimas e por vezes inexploradas. Por isso, faz bem que incentivemos a exploração do contrassenso: dele ocasionalmente extraímos o inédito e inesperado, e podemos chegar a paradeiros surpreendentes, ainda que não tenha sido esta a intenção do autor que está em nossa companhia. Faz diferença? Parece que não…
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Evita-se muita frustração lembrando-se…
Evita-se muita frustração lembrando-se de que a arte também é majoritariamente constituída de homens medíocres, com inclinações medíocres, que aprenderam a técnica artística como aprenderiam a soltar pipa ou a jogar Sudoku. Assim, a maioria se distingue apenas superficialmente, quando em essência nada têm de superior. Portanto esperar, a cada obra, a descoberta de um espírito extraordinário é simplesmente irracional. Justamente por serem raros é que os grandes artistas merecem um apreço especial.
Drummond afirmou preferir Camões a Pessoa
Drummond afirmou preferir Camões a Pessoa por ser este “frio” e, segundo Drummond, tocar-nos apenas a dimensão intelectual. Preferências… Mas aí está uma observação que pode servir de guia para esta comparação já corriqueira: a “dimensão intelectual”. Se a tomamos com outro sentido, isto é, dizendo respeito à dos dois poetas e não à nossa, não há como não concluir que, em Fernando Pessoa, é ela mais refinada, mais abrangente e mais profunda: há na obra de Pessoa uma multiplicidade que talvez não se encontre em outro autor português. Exatamente por isso, da mesma maneira que é possível declarar uma preferência a Camões por ser ele menos “frio”, é possível declará-la a Pessoa por ser-lhe o mundo interior ostensivamente mais rico que o mundo exterior que serviu de base aos versos de Camões.
Definições imprecisas
Salvo engano, Freud disse da misantropia “um estado psíquico”; no dicionário, encontramos uma chocha “falta de sociabilidade”. Ambas as definições são vistosamente imprecisas, por esconderem o caráter essencialmente ativo da misantropia. Por isso, é preciso que um especialista refaça o trabalho malfeito e nos ilumine sobre o sentido deste vocábulo tão especial. Muito obrigado. A misantropia é um esporte. Nele, duas equipes se confrontam: a do misantropo, constituída por ele mesmo; e a da humanidade, constituída por todas as outras pessoas. O objetivo do misantropo é evitar a humanidade, e o objetivo da humanidade é importuná-lo. O diferencial deste esporte é que seu praticante pratica-o o tempo inteiro, e cada lance de sua vida pode ser considerado uma jogada. Tomemos o futebol como referência. Se o misantropo, por exemplo, ao perceber a ameaça de uma abordagem na rua, saca do bolso o celular e finge atender uma ligação, ou simula estar concentrado para não tomar parte em uma conversação estúpida à sua volta, ele efetua algo como um drible. Se falta a qualquer ocasião social, é como se marcasse um gol. Fernando Pessoa fingiu-se doente para faltar a um Natal em família: gol honesto. Um belo gol seria o que fez Karl Kraus na ocasião em que, perguntado num trem se seria ele o célebre Karl Kraus, respondeu o desconhecido com um rotundo “não”. Thoreau, mudando-se para uma floresta para viver entre animais selvagens, anotou um golaço semelhante ao de Maradona contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986. E por aí vai… Com esses poucos exemplos, já se percebe que a misantropia nada tem de passiva ou de passageira, sendo muito menos um “estado psíquico” que uma prática diária e maravilhosamente estimulante. Muito obrigado.