A rima é indispensável?

Embora eu, particularmente, muito aprecie o verso rimado, jamais endossaria Bilac e Guimarães Passos, que sustentaram “que em composição alguma de versos se deve prescindir da rima. Ela é indispensável”. Isso por vários motivos. Mas um deles merece menção especial. Não sei como compunham os poetas supracitados, porém parece-me necessário, saltando todo o processo de ideação do poema, que dele seja feito um rascunho. Se quero fazer rimas, pois, esboço primeiro o poema em versos brancos, para em seguida concentrar-me no ritmo, nas rimas e na seleção minuciosa das palavras. Percebo claramente que, preocupasse-me com rimas neste momento do esboço, não faria senão me estorvar o impulso criativo, interrompendo-me o fluxo das ideias para abrir um dicionário, algo absolutamente contraprodutivo. Portanto, tenho de concluir que este impulso criativo, em sua forma espontânea, pede a manifestação em verso branco — para não dizer verso livre. Pois bem: sei que nem todo grande efeito artístico é espontâneo, muito pelo contrário, como quase todo brilho de uma obra é proveniente de detalhes cuidadosamente pensados. A rima, pois, embora seja uma artificialidade, fica justificada. Mas a prática mostra, repetidas vezes, que rimar os versos é adulterá-los, e ainda que se possa ganhar em beleza com fazê-lo, vai-se aquela naturalidade inicial. Finalmente, chego onde quero. Haverá versos em que o poeta se porá num nível de estímulo tão forte que se sentirá a derramar emocionadamente a alma sobre o papel; versos que sairão como uma avalanche, que lhe expressarão o mais íntimo e brotarão com ímpeto e nitidez diferente daquilo que cria de ordinário. Não estou certo sobre o quanto se ganha rimando tais versos, quer dizer, parece-me que o poeta que os deforme para enquadrá-los em formalidades talvez cometa um crime contra si mesmo e insulte o singularíssimo momento em que os concebeu.

Tudo indica que completarei um ano inteiro…

Tudo indica que completarei um ano inteiro de dedicação exclusiva a quinze míseros poemas ou, mais precisamente, a uns mil e setecentos versos. Ria, Hugo, ria! E, no fim do processo, não haverá publicação, pois é preciso que os versos descansem — ainda que pareça ser isso o que têm eles feito nos últimos meses. Não fossem estas notas um eficacíssimo meio de dar vazão a ideias que surgem e se vão amontoando, já me veria diante de uma montanha inexpugnável de anotações. Tenho, por baixo, uns quarenta contos perfeitamente idealizados que não me exigem mais que um dia de trabalho para realizarem-se no papel. Além disso, já não sei quantos enredos para romances, peças ou o que for. Até para poemas, há excessos que não puderam ser aproveitados neste volume. E fico aqui a imaginar como, no passado, artistas que não dispunham de secretários organizavam-se após dez, vinte anos de trabalho criativo. Sem um computador, parece-me que eu seria forçado a desistir…

O grande gênio o mais das vezes vive estorvado

Creio ter sido Carpeaux a notar que o grande gênio o mais das vezes vive estorvado pelas circunstâncias. E mesmo que não queira, mesmo que resista, uma força parece colocá-lo em movimento, proibir-lhe a inércia improdutiva. Assim temos o perfil mais comum: um indivíduo nem pobre, nem rico; nem totalmente desprovido de meios, nem agraciado com demasiadas facilidades. Põe-se em ação; fá-lo porque precisa, porque sente pulsando um desejo e uma necessidade de superar-se, de elevar-se, que não é senão uma recusa terminante das condições presentes. Destarte, adquire uma motivação inquebrantável, disposta às últimas consequências para alcançar aquilo que se propôs. Adapta-se como pode aos estorvos momentâneos e segue adiante, sempre adiante. Então, todo esse conjunto complexo de circunstâncias de que fala Pessoa, especialmente as do ambiente, torna-lhe o espírito excepcionalmente vigoroso, para que seja por fim beneficiado pelos necessários — como também nota Pessoa — “episódios mínimos de sorte”. É um fenômeno interessantíssimo, e que dá o que pensar…

Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada…

Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada, — e tão imitada!, — o mesmo ocorre em poesia com essa leveza simulada, essa simplicidade querendo-se profunda, essa delicadeza que, quando não expressão autêntica de um temperamento, enfastia. Em resumo: Drummond e Bandeira. Talvez a maior maldição do sucesso seja-lhe os rebentos, isto é, os imitadores. Como é constrangedora a técnica quando exposta sem o verniz original! E ver todas essas cópias baratas pululando, tornando ridícula a própria criatividade a engendrou… Diretamente, é verdade, os originais não se maculam; contudo, é difícil que algum artista se regozije com falsificações. Restam os antídotos, e nenhum parece mais potente que inserir na própria arte excentricidades absurdas, repugnantes, as quais imitador nenhum terá coragem de se apropriar.