O meu melhor humor…

O meu melhor humor — posso chamá-lo talvez minha veia sarcástica — prova-se a mim o melhor justamente por se manifestar de praxe com intensidade máxima em momentos sérios. Sei bem o que sentia Cioran: é um impulso irresistível! É por isso que, relaxado, talvez não me sinta instigado a gracejar. Para fazer boas piadas, tenho de estar em atmosfera solene; então saem elas como por automatismo, senão necessidade. E assim percebo que, nestas Notas, que se fazem leves, tranquilas, quase sem esforço, é raríssimo encontrar mostras de minha fatal inclinação para a palhaçada. Já em minhas linhas “sérias”, onde me ponho num estado de concentração plena, onde arranco-me do íntimo o que me parece a verdade mais pura, onde — não há negar… — meto-me amiúde, exatamente como Cioran, a despejar pessimismo, desespero e desencanto no papel, então, precisamente nestes momentos, também como Cioran, tenho a sensação de ser quase um pecado o desperdiçá-los como pano de fundo para uma piada grosseira. Infelizmente, não posso mudar-me a natureza…

Finalmente…

É uma verdadeira alegria constatar que, após quase um ano de trabalho duro e repetidos lamentos, finalmente posso aqui registrar que terminei um novo voluminho de poemas. Em poesia, é inegável existir esse prêmio. Agrada o saber-se autor de versos acabados, sensação que, com a prosa, é assaz diferente… Agrada, sobretudo, porque a poesia surpreende, em razão da própria técnica poética, e surpreende mesmo que o leitor seja o autor dos versos que lê. Esse efeito surpresa, quando escancarado pela nova leitura, traz uma satisfação sincera ao evocar em mente o momento de brilho de sua criação. Assim é a poesia: muito trabalho duro, e uns poucos lampejos que parecem justificar tal trabalho; lampejos que, fulgindo em meio a um todo coeso, conferem imenso valor a uma criação enganosamente estéril.

A arte, em sua manifestação mais autêntica, é a expressão…

O artista que ambiciona o sucesso enquanto vivo merece-o, e merece-o por ser a arte escolha dificílima. Contudo, tal artista nunca, jamais poderá almejar um posto entre os maiores, posto que a arte suprema nada espera e nada tem de esperar. A arte, em sua manifestação mais autêntica, é a expressão que brota de uma necessidade e tem como finalidade a própria expressão. Pouco importam os meios pelos quais se expresse, as técnicas de que porventura se valha: são estes meros detalhes que, realçados em excesso, obscurecem esta verdade autoevidente: não se faz grande arte por capricho.

Um ano inteiro para tecer um punhado de versos!

Um ano inteiro para tecer um punhado de versos! E ainda não os finalizei!… A sensação é de uma lentidão inadmissível para alguém que tem na própria obra a raison d’être. Incomoda, e incomoda muito essa produtividade de tartaruga quando ao mesmo tempo as ideias parecem desesperadas a bater nas grades de uma jaula reclamando libertação. Querem elas inundar imediatamente os papéis, tal como também quero, mas não cedo e não largo a prudente recomendação de “um trabalho de cada vez”. Não há como ignorar a possibilidade de uma morte imediata: caso tal cenário se efetivasse, restaria, em extensão muito superior aos pouquíssimos versos que compus, um calhamaço desorganizado e quase incompreensível de anotações.