Os melhores minutos de Bach produzem um como êxtase auditivo, e a sensação de que ninguém jamais soube extrair sonoridade parecida do instrumento que se destaca na composição. Assim com o cravo, com a viola, com o violino, com a flauta… quando se pensa no conjunto, parece Bach o compositor que tudo conseguiu dominar, e tudo explorou com maestria incomparável. Os melhores minutos de Beethoven, porém, produzem algo diferente, e não há talvez palavras para descrever o milagre que caracteriza as suas composições. Um sujeito surdo, mas que causa no ouvinte, através de um estímulo auditivo, um arrepio paralisante da cabeça aos pés.
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O cinema, a música e o teatro, em comparação…
O cinema, a música e o teatro, em comparação com as artes plásticas e a literatura, possuem a desvantagem de se verem contaminados de operários que se julgam, mas não são artistas. E daí nasce uma série de consequências que só podem frustrar aquele que pariu a criação. Deve ser angustiante para um compositor perceber possível fazer carreira de virtuose executando obras dos outros, e confrontá-lo com o cenário despojado das facilidades que a primeira opção oferece, caso opte por se concentrar em suas próprias composições. Mais angustiante deve ser acompanhar o reconhecimento de operários da música como artistas. Ao menos, da angústia nascerá a certeza de que sua arte só se faz solitariamente, e de graça. Daqui em diante, jamais confundirá a verdadeira com a falsa motivação.
É engraçado como uma conjunção de múltiplos…
É engraçado como uma conjunção de múltiplos fatores, como a própria música moderna, a espantosa facilidade de acesso e, ao mesmo tempo, a raridade de um contato fortuito, de um guia natural, dificultou sobremaneira a orientação nas grandes obras da música. Para conhecer razoavelmente um compositor fecundo como Mozart, Bach, Beethoven ou Brahms, não é necessário apenas o gosto incomum pela música clássica: é preciso um esforço consciente e direcionado para conhecê-los, um esforço de pesquisa por um norte que parece escondido detrás do emaranhado de centenas de composições. O livro de Carpeaux, é claro, mata o problema, e cai como um portento nas mãos do musicófilo moderno. Mas muito antes de pensar em lê-lo, a maioria já cedeu à desorientação.
Talvez tenha sido Mozart o artista mais genuíno e mais genial
Entre todos, talvez tenha sido Mozart o artista mais genuíno e mais genial. É absolutamente impressionante constatar a vastidão e a qualidade de sua obra, e se consideramos suas modestas três décadas e meia de vida… Parece não haver quem se lhe aproxime. Parece inexplicável e impossível uma obra tão vasta, tão bela, tão tocante e tão potente. Um artista de manifestações inesgotáveis e sempre excelsas: cativa o Mozart das sonatas, encanta o Mozart dos concertos, espanta o inigualável Mozart do Réquiem. Como isso? como de um único homem? No caso de Mozart, haver as perguntas mais do que satisfaz…