Assim como em todo o resto, a abordagem junguiana para a interpretação de sonhos é muito mais interessante do que geralmente se faz em psicanálise. Partindo do mesmo e necessário princípio de que se há de encontrar um sentido para eles, mas não se restringindo a uma interpretação exclusivamente causal, Jung se abre a um horizonte infinito de possibilidades. Um analista atento rapidamente se impressiona com a disparidade entre os sonhos de um mesmo indivíduo, desde a lucidez de manifestação ao conteúdo quase sempre discrepante, ora calcado no presente, ora no passado, ora em fantasias e por aí vai. Há sonhos em que a linearidade facilita a compreensão, noutros há uma estranha sobreposição de cenas desconexas, senão imagens abstratas e ausência completa de nexo lógico. Não é raro haver a certeza sensitiva de que ocorreu tal ou tal evento num sonho, sem que dele se tenha retido elementos pictóricos; como ocorre também a memória de diálogos e discursos soltos, em manifestações que desafiam o raciocínio. Isso para não falar em sonhos que se ligam espantosamente a eventos concretizados no futuro. Jung, notando toda essa complexidade, acerta em abordar cada sonho individualmente e repugnar a tentativa de encaixotá-los todos num “manual de interpretações”. É verdade que o psicólogo, agindo desta forma, o mais das vezes encontra-se no escuro; mas tal humildade, para não dizer coragem, ocasionalmente pode recompensar.
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Os escravos do passado
Se causa estranhamento, e um estranhamento legítimo, uma inteligência como Schopenhauer apegar-se a uma filosofia concebida aos trinta e passar o resto a vida a sustentá-la, que dizer de Freud, velho e de cabeça branca, a continuar limitando a psicologia humana à “sexualidade reprimida” e a traumas infantis? É o fim! Parece uma vida inteira desperdiçada, uma vida inteira em que o espírito não foi capaz de contemplar possibilidades superiores. Ou então evidência de um orgulho invencível, que tratou de sabotar-se estrangulando todo e qualquer lampejo que pusesse em risco as conclusões de anos precedentes. Como é possível, ou melhor, como não rir ao imaginar Freud, já no fim da vida, a despejar a mesma ladainha sobre um paciente igualmente velho? Dois homens, já com um caixão aberto a esperá-los, a vasculhar episódios da infância para reputá-los agentes de ações atuais. É verdadeiramente uma lástima que Voltaire tenha vivido antes de Freud.
A diferença entre as obras de Jung e Frankl
A diferença entre as obras de Jung e Frankl e quase a totalidade do que se escreveu em psicologia é que ambos arquitetaram uma psicologia para mentes saudáveis, enquanto o grosso do restante não se aplica senão a estados mentais doentios, ressaltando, sempre e somente, a morbidez de que o homem pode padecer. Um indivíduo minimamente vivido e são que escolha uma obra de Freud ou Adler para adentrar na ciência da mente sairá espantado e desgostoso, tomado de um misto de estranhamento e repulsa porque, obviamente, o homem pintado em tais obras pouco ou nada tem de comum consigo mesmo. E então verá, em cada página, intermináveis classificações de transtornos, complexos e similares, muitas vezes associados a comportamentos naturais, porém justificados através de motivos que parecem insultos diretos àquele que lê. Em Jung, em Frankl, como é tudo diferente! Nestes grandes psiquiatras, que foram também grandes homens, embora se encontre o Freud e o Adler, o alto espírito pode, enfim, se reconhecer.
A psicologia moderna, tirando do homem a autonomia…
É curioso como a psicologia moderna, tirando do homem a autonomia, pintando-o como submisso a este monstro criado por Freud, — o “inconsciente”, — acabou por desvalorizar-lhe a própria mente, o contrário do que se poderia esperar. Mesmo Jung, que tão distintamente percebeu o caráter individual da psicologia humana, parece derrapar em algumas falsas noções da psicologia moderna. Afirma ele, com algumas prudentes ressalvas, que nada influencia tão pouco nossa conduta quanto as ideias. E aqui voltamos, mais uma vez, à comparação insultuosa deste “nossa”. Qual “nossa”? Inquestionavelmente, homens diferentes fazem usos diferentes da mente que possuem. Não se há de ser filósofo para se ter uma “filosofia de vida”; e esta, que é senão o resultado prático de ideias, conceitos e julgamentos do indivíduo? Como negar as consequências práticas do raciocínio ao homem de valor? Como continuar com essa sustentação infame de que toda moral é uma construção estritamente coletiva? Se as ideias influenciarem realmente tão pouco o homem, só se pode concluir que este homem, especificamente, trata-se de uma natureza inferior.