Tanto a tradição cristã quanto a tradição oriental…

Tanto a tradição cristã quanto a tradição oriental sabem muito bem que o erro pesa muito menos ao leigo que ao conhecedor. Por isso se costuma dizer que se deve refletir cautelosamente antes de se assumir o caminho da renúncia: uma vez feito o voto, a queda é certamente mais severa, e frequentemente irreversível. Assim é para assuntos do espírito. Ai daquele que, ciente do mundo, propõe-se renegá-lo. A partir deste momento, parecerão infinitas as tentações, camufladas cada vez mais sutilmente, sempre à espreita na expectativa de um assentimento mínimo, que não parece nada, mas que consuma para sempre a traição. Daí em diante cai-se e cai-se muito fundo sem que se perceba, passa-se a cometer erros simples, há muito superados, e quando a mente se recorda, num lampejo fortuito, do velho voto, do prévio estado de espírito já inexistente, os quer a ambos, mas já não não pode tê-los, e talvez não poderá nunca mais.

Talvez a principal razão do ateísmo moderno…

Talvez a principal razão do ateísmo moderno seja o homem, hoje, passar a vida num ambiente controlado, alimentando uma falsa sensação de segurança, que se coloca justamente no lugar daquilo que mais lhe faz falta: a experiência do desamparo extremo, da total dependência de sua condição. Não seria difícil curá-lo da descrença: bastaria colocá-lo num barco pequeno, em mar aberto, no meio de uma tempestade, ou sozinho, à noite, em mata fechada, que ele certamente faria as pazes com a religião e retornaria da experiência transformado, recitando de cabeça um punhado de orações.

O termo “religiões” é dos mais enganosos

O termo “religiões” é dos mais enganosos, e joga num ridículo indescritível aqueles fanáticos, conhecedores de apenas uma delas, que se põem a declamar opiniões. Um pouco de leitura é suficiente para demonstrar que as chamadas religiões possuem um vocabulário próprio e falam de coisas diferentes. Se por vezes as traduções podem passar uma outra imagem, tradução nenhuma será capaz de trair o conjunto, ostensivamente original. Daí que, quase sempre, para enxergar um conflito direto entre elas é preciso fabricar um espantalho, algo que só pode revelar a ignorância de seu fabricante. Mas não adianta: é preciso um esforço tremendo para impedir a vaidade de se manifestar.

Mais impressionante do que os feitos descritos…

Mais impressionante do que os feitos descritos na biografia de Milarepa é a caracterização perfeita da loucura como constituinte necessária da santidade. Só de imaginá-lo como retratado, um “esqueleto” de pele esverdeada, um “fantasma”, um miserável debilíssimo, vestido em farrapos… E mesmo assim notar-lhe a vontade pétrea, a abnegação total e a resolução que não cede perante as mais intensas e mais básicas necessidades. O que mais impressiona é que, após assimilar a razoabilidade da loucura, acaba-se constatando que loucos, em verdade, estavam todos os demais.