Imprecisão dos textos bíblicos

Há um argumento extremamente irritante na refutação dos textos bíblicos: a precariedade no processo de reconstrução e transmissão dos textos antigos. Ora, se considerarmos que os métodos de transmissão eram precários a ponto de comprometer a autenticidade do que foi escrito — e tivermos o mínimo de coerência, — então teremos de atirar no lixo tudo quanto foi produzido na Antiguidade; logo, estaremos proclamando a falsidade de, para citar um único exemplo, toda a obra de Aristóteles. Creio seja absurdo acreditar na falsidade do que foi escrito  e repassado à luz de milhares de testemunhas ao longo do tempo, em absoluto foco de atenções: para tanto, será forçoso acreditar na ação conjunta de muitos homens de distintas gerações em prol da falsificação. Isso, a mim, não é senão uma ofensa covarde à honrosa iniciativa de tantos ao longo dos séculos a fim de preservar o conhecimento humano; se procedemos desta forma, acabaremos por considerar, rigorosamente, inválida toda a produção cultural que não a da modernidade.

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O cristão comum

A despeito de frequentar os cultos, festas, participar ativamente da comunidade, publicar provérbios e mensagens apologéticas nas redes sociais, não vejo uma única distinção de conduta do cristão comum perante o resto das pessoas. Está, claro, registrada a prescrição de Jesus quanto à conduta, mas quantos a seguem? Penso que o cristão, necessariamente, deveria diferir dos demais, caso contrário ser-se-ia cristão por inércia. Vejo isso, por exemplo, em islâmicos. E que faz, em nossos dias, o cristão comum? Canta à plena voz durante o culto? Paga o dízimo? Mesmo os líderes: em que moeda pagam pelo título de autoridade espiritual? Pergunto-me pois, engraçado! Acabo de ver um pastor evangélico, trajado em social, entrar num boteco, comer um salgado e seguir sua vida. Senti, subitamente, que eu mesmo poderia pegar um microfone e, bem vestido, pregar à meia dúzia de fiéis.

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Solenidade ao rezar

Por que é que os evangélicos — lá vou eu meter-me onde não devo… — improvisam as preces? Penso e a conclusão é inevitável: sempre que, escutando um evangélico a rezar, a frase murcha, a palavra falha ou o sentimento se não expressa com potência, vejo atirada ao ridículo a seriedade da oração. Pergunto-me se apenas eu estou a reparar o descompasso da frase não planejada que, mostrando-se impotente, recorre à entonação para expressar-se e — desculpem-me a sinceridade — deveria envergonhar. Tão mais bonita é a oração pronta, e mais quando silenciosa. Deve ser algum defeito de discernimento, mas vejo como clara a relação entre silêncio e reflexão, silêncio e respeito, silêncio e solenidade. E importuno-me com a pergunta sem resposta: por que o homem de fé não segue o exemplo de Deus e se cala?

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