Um elemento genuinamente brasileiro

Se há um elemento genuinamente brasileiro que, perante o mundo, destaca-se sobremodo, é a tal espiritualidade, como se convencionou chamá-la. Neste quesito o Brasil, ainda que não se reconheça, põe-se dignamente se não ao lado, a um nível muito chegado ao de qualquer país, a despeito de quão mais antigo seja. E se lhe comparamos o refinamento espiritual a um país de idade parelha como, por exemplo, os tão invejados Estados Unidos, o resultado é acachapante. Tal é simplesmente um fato. A maneira como aqui se desenvolveram e enriqueceram as tradições religiosas, quais importadas, quais originais, é impressionante e não se deve apenas ao sincretismo e à miscigenação cultural. Nasceram em solo brasileiro indivíduos singularíssimos, alguns verdadeiros gênios, algo que já poderia muito bem servir como os “pretextos pessoais e históricos” que, segundo Nelson, justificariam a falta de autoestima tupiniquim.

O homem que se priva da dimensão religiosa…

O homem que se priva da dimensão religiosa perde em experiência, perde em potencialidade e perde, sobretudo, em conhecer-se. Havê-la é algo que não pode negar, e ignorá-la não é senão mutilar-se. Assim que, caso queira conhecer-se e entender-se inteiramente, deve estimulá-la e manifestá-la ainda que pela busca. E se, um dia, chegar à conclusão que o esforço religioso não o premiou, verá que sua própria existência já é evidência de uma aspiração superior, de um desejo sincero de encontrar o elo que o liga ao restante da criação: uma evidência, portanto, que não pode senão enobrecê-lo.

Se algo se atingiu pelo enfraquecimento…

Se algo se atingiu pelo enfraquecimento da religião no ocidente, foi o enfraquecimento dos vínculos sociais no nível mais básico. O próximo bíblico tornou-se, mais do que nunca, um estranho, e o sentimento que permeava ou deveria permear uma comunidade, seja ele qual fosse, transformou-se numa generalizada e absoluta desconfiança. Rompeu-se um elo comum sem substituí-lo, e o resultado só poderia ser a segregação. Disso, não se pode concluir senão que o mundo tornou-se um lugar ainda mais hostil.

Quando se destrói aquilo…

Diz, em obra póstuma, o falecido papa Bento XVI:

La società occidentale è una società nella quale nella sfera pubblica Dio è assente e per la quale non ha più nulla da dire. E per questo è una società nella quale si perde sempre più il criterio e la misura dell’umano.

Disso deriva, em grande parte, o vácuo existencial em que a sociedade moderna se meteu. Quando se destrói aquilo que por muitos séculos serviu ao homem como um fulcro de sentido, uma certeza e um suporte, são inevitáveis o desamparo e a confusão. Desorientado, o homem moderno já não tem em que amparar-se e, desprovido de uma visão superior da existência, tornou-se menor. São discutíveis os benefícios da crença ao homem comum; contudo, não se pode negar que a prática religiosa força-o a enxergar uma realidade mais complexa e, frequentemente, eleva-o acima da banalidade cotidiana.