O caminho para a iluminação

Embora o fazê-lo possa contrariar a doutrina budista, dissecando analiticamente o “caminho para a iluminação”, apresentado de numerosas maneiras pelas mais variadas escolas, percebemos que ele pode, sim, entregar grande parte dos resultados que promete. A base das práticas tântricas budistas consiste em educar a mente através de um processo autossugestivo que estabelece um novo entendimento do ser e do meio. Por um conluio entre hábitos e reprogramação mental, acrescido de um retiro que dificulta distrações ou distúrbios, o ser efetivamente se transforma. Meditando por horas, dias, meses no vazio, enxergando a si e a realidade desprovidos de autonomia e fundamentação própria, convencendo-se parte de um todo, misturado no mesmo vazio em que medita, embora refém de ilusões da experiência sensível, é previsível que se alcance um rompimento — ou uma superação — dos laços terrenos, e consequentemente se chegue a um estado de alma cuja tradução portuguesa oscilaria entre paz e beatitude. Negar, repetidamente, o corpo, a mente, a realidade dos fenômenos observáveis, as sensações, em seguida visualizando-se como uma entidade superior disforme, controlando rigorosamente qualquer desvio de foco: alguém que prossegue por esse caminho com firmeza, certamente há de se tornar algo diferente. E pensar que tudo isso é apenas o assentamento do terreno…

Budismo é largar tudo e viver de esmolas

Tomaria o budismo integralmente como modelo de conduta caso o fazê-lo não incorresse em assumir um estado de dependência que a mim é intolerável. Budismo, à risca, é largar tudo e viver de esmolas. Disto a conclusão: se o livramento final exigir como passo obrigatório a sujeição completa a este mundo, ainda que temporariamente, nunca o experimentarei. É como se, desejando liberdade, fosse necessário, primeiro, submeter-se a pior e mais plena das escravidões. Pensando melhor, faço a correção: não tomaria o budismo integralmente porque, integralmente, qualquer coisa torna-se intragável.

As páginas de Jakob Boehme

É um verdadeiro choque entrar em contato com as páginas de Jakob Boehme. O primeiro impulso é perguntar: como é possível? O universo místico que lhe permeia as linhas parece impensável, inconcebível, imperceptível ao medíocre ser humano. De onde tão engenhosa imaginação? de onde essa concepção da vida que põe de joelhos a banalidade do concreto, tornando irrisório aquilo que os olhos podem ver? A noção do sentido último, a visão dos caminhos, a filosofia que implica uma conduta… todas essas manifestações de um espírito luminoso e respeitável, do qual escuso-me de fazer juízo de valor. Mas o que mais espanta, o que trava o raciocínio e atira o cérebro em perplexidade é estar ciente, a cada página, que o autor das linhas era sapateiro!

As visões do céu e do inferno de Swedenborg

Pode-se dizer várias coisas das visões do céu e do inferno de Swedenborg, exceto tratarem-se de obra de um espírito capcioso. Swedenborg possui a virtude suprema da sinceridade: não tenta iludir, esconder-se, abre-lhe a alma e busca expressar-se com a maior clareza possível — ou seja, trata-se de um espírito leal. É por isso, sobretudo, que não merece ser ironizado. Em casos como este, a ironia não passa de uma manifestação mesquinha…