Foi algum teosofista que disse as religiões terem surgido adequadamente, cada qual à civilização em que irrompeu. Parece uma afirmação demasiado poética, que implica uma harmonia universal só existente na fantasia, e refutada violentamente pela história. Antes de civilizações, há indivíduos, e a estes geralmente não é oferecido um cardápio de crenças, para que eles escolham conscientemente a mais adequada a si mesmos — pior seria julgá-los essencialmente adequados ao próprio meio. O correto seria dizer que as civilizações moldaram as religiões que em si floresceram, sendo elas apropriadas ou não. As religiões sempre medraram em meio a intenso conflito, verdadeiras batalhas quer a nível social, quer individual. A primeira prova de uma religião é sobrepor-se às crenças anteriores. Disso extrai-se o óbvio: tivessem nascido as religiões tão perfeitamente adequadas ao meio, teríamos paz, e não, como evidencia a história, uma progressiva e violenta “adequação”.
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Raciocínio intragável
Sinto-me perfeitamente capaz de imaginar efeitos impressionantes provenientes das práticas tântricas budistas, que não são senão um processo de reeducação mental. Mas nem o budismo, nem qualquer outra escola oriental pode convencer-me do contrassenso de negar a realidade, não importa quão maravilhosos efeitos prometam com o fazê-lo. Compreendo os perigos de valorar sobre o erro, compreendo, sobretudo, a necessidade de romper com os laços terrenos; mas minha mente rechaça violentamente o considerar-me um nada em essência, envolto num nada desprovido de qualquer fundamentação: zeros e mais zeros, e nunca alguma coisa. Não! Há ilusões e posso distingui-las porque há, também, algo não ilusório. Há a mente e os produtos da mente, como há uma realidade exterior que se lhes difere. Lamento, lamento, mas não posso aceitar como fenômenos idênticos um soco na cara imaginário e um soco na cara real — e posso, quem diria!, provar o que digo.
Sobre Deus, de Mário Ferreira dos Santos
O que faz Mário Ferreira dos Santos nesta obra intitulada Sobre Deus é digno de nota. Após uma breve exposição sobre o tema escabroso, segue-se um debate de altíssimo nível em que são confrontados simplesmente os melhores argumentos a favor e contra a existência de Deus. Mário, embora externe de antemão sua posição pessoal a respeito do problema, deixa-lhe os opositores falarem livremente. O resultado é uma obra, sobretudo, esclarecedora, cujo desfecho expõe fatalmente as contradições terríveis em que se atiram aqueles que negam a existência de Deus, isto é, a existência do criador supremo, eterno, autossuficiente e imprescindível. Pela lógica, é forçoso admiti-lo. Mas há mais, há um efeito interessantíssimo decorrente da honestidade intelectual e da sabedoria de Mário: não se tem notícia de argumentos mais fortes, completos e convincentes contra a existência de Deus que os levantados pelo barão de Holbach; e estes permeiam a obra sem obstáculos, livres para evidenciar-lhes a potência. Ocorre que, quando confrontados com as provas lógicas irrefutáveis oferecidas pelos grandes estudiosos do problema, as provas lógicas que exigem a existência de um princípio criador e exige-lhe as qualidades que tanta polêmica têm gerado há tanto tempo, os argumentos de Holbach perdem a força, ainda que não estejam sendo diretamente rebatidos. Que efeito! A lógica se impondo soberana! Tudo que poderia ser dito contra Deus está dito, e dito de forma emotiva, eloquente, reunindo aspectos o bastante para que nenhuma alma permita-se indiferente. E, ainda assim, a argumentação fracassa completamente diante de um exame acurado…
O homem comum deposita majoritariamente nas relações…
O homem comum deposita majoritariamente nas relações o sentido da própria existência. Relações são extremamente frágeis, e é previsível que, por isso, o homem comum descaia hora ou outra numa fortíssima crise existencial. O homem religioso, porém, o verdadeiro, que nada tem de comum, encontra algo mais firme para se apoiar. Diga-se o que quiser, não se tem notícia de algo como a religião para entregar sentido ao espírito humano: e só por isso já se lhe justifica o papel honroso que presta numa sociedade.