Tanto a tradição cristã quanto a tradição oriental sabem muito bem que o erro pesa muito menos ao leigo que ao conhecedor. Por isso se costuma dizer que se deve refletir cautelosamente antes de se assumir o caminho da renúncia: uma vez feito o voto, a queda é certamente mais severa, e frequentemente irreversível. Assim é para assuntos do espírito. Ai daquele que, ciente do mundo, propõe-se renegá-lo. A partir deste momento, parecerão infinitas as tentações, camufladas cada vez mais sutilmente, sempre à espreita na expectativa de um assentimento mínimo, que não parece nada, mas que consuma para sempre a traição. Daí em diante cai-se e cai-se muito fundo sem que se perceba, passa-se a cometer erros simples, há muito superados, e quando a mente se recorda, num lampejo fortuito, do velho voto, do prévio estado de espírito já inexistente, os quer a ambos, mas já não não pode tê-los, e talvez não poderá nunca mais.