Um dos dilemas enfrentados pelo romancista…

Um dos dilemas enfrentados pelo romancista moderno decorre da consciência de que, em muitos aspectos, o cotidiano atual seria incompreensível para homens do passado. Quando lemos, hoje, histórias de quinhentos, oitocentos anos, compreendemos sem muita dificuldade os afazeres, os costumes, as sociedades de então, ainda que os contrastes sejam evidentes. Plantar, colher, celebrar, navegar, pescar, fermentar, tecer, cavalgar, rezar, construir, casar, pintar, jogar… tudo isso é muito antigo e muito atual, possibilitando cenas inúmeras e livros inteiros cujo sentido jamais se perderá. Já afazeres modernos, como “navegar na internet” ou simplesmente operar um computador, algo em que se faz uma carreira, gasta-se uma vida, certamente não possuem a mesma qualidade atemporal. O romancista, mirando-os, isto é, mirando parte considerável do material de seu tempo, tem de se decidir o quanto os aproveita, e embora saiba que ocultá-los talvez seja falsificar-se, experimenta a impressão de que, se incompreensível aos grandes homens de outros tempos, sua história provavelmente não terá valor.