Causa inveja a memória daqueles que conseguem reconstruir mentalmente a infância, lembrando lances marcantes e acontecimentos vários com minúcias que seriam naturalmente ignoradas. E mais inveja a memória daqueles que, além do que já recordam sem esforço, esforçando-se relembram outro tanto a mais. Porque esta não é uma faculdade universal. E, ao que não a possui, ainda pior do que o vácuo, é a incerteza, isto é, a vaga lembrança de que algo ocorreu, mas sem qualquer possibilidade de certificação. Quer dizer: vem ao sujeito a ideia de ter dito, de ter pensado, de ter vivido algo, mas não consegue reconstruí-lo, não consegue sequer recordar o que precisamente disse, pensou ou viveu. Daí que pode vir-lhe em seguida esta outra ideia: se mesmo disse, pensou ou viveu o que julga tê-lo feito, então será real a ligação daquele fato longínquo com o presente; e esta, para além de inimaginável e extraordinária, pode não apenas dotar o destino de beleza, de sentido, mas afirmar uma realidade fundamental. No entanto, a memória não pode certificá-lo: a coincidência espantosa, assim, não pode assumir um valor superior ao de possibilidade. Um desperdício dificílimo de engolir!