Chegou, enfim, o dia em que a multidão vocifera contra a semântica, guiada pelos novos especialistas em linguagem para os quais uma palavra não pode ter senão um único significado: aquele conhecido e reconhecido por eles próprios. E é assim que o adjetivo “negro” só pode referir-se à cor de uma pele. De um preconceito revoltante, portanto, dizer “noite negra”, “magia negra”, “dias negros” e similares. Que coisa… Para resolver o problema, bastaria consultar um dicionário; mas ocorre que este também se tornou intoleravelmente preconceituoso. Então é preciso fazer um exercício mental e perguntar, para além da etimologia da palavra, de onde pode ter surgido a noção que a fundamenta. Um homem com alguma cultura percebe de imediato que o adjetivo “negro” funda-se não na cor de uma pele, mas no simbolismo natural mais antigo, o mais básico e óbvio, captado pelo primeiro homem que pisou nesta terra no primeiro dia de sua vida, no simbolismo que representa a contraposição entre luz e trevas, claridade e escuridão, presente nas manifestações naturais mais evidentes entre todas: o dia e a noite. Obviamente, o especialista que o não compreende também não compreenderá a conotação negativa que brota desta última. Ele pode pressionar um interruptor e acender uma lâmpada em seu quarto a qualquer momento, algo que um homem de Neandertal não podia fazer. Ah, mas se o especialista passasse um único dia, sozinho, numa caverna! Lá, sem dúvida, haveria tempo e motivo para que revisasse o seu ilustríssimo conteúdo mental.