Cioran recomendou, corretamente, que basta ao sujeito que sofre um acesso de raiva em relação a alguém pegar um papel, uma caneta, e registrar algumas dezenas de insultos: “Ele é um porco, um crápula, um bandido, um animal…”. A raiva passa. Se não passa, diminui drasticamente, e o registro escrito provoca uma espécie de libertação. Ora, o que se passa com a raiva, também se passa com a angústia. Mas são procedimentos diferentes. A raiva vai-se com o jato frenético e vertiginoso, vai-se no próprio modo de escrever. Já a angústia se dissipa, ao menos em parte, com a racionalização. Sempre se dá o mesmo: evocá-la como que a intensifica, atira a mente num processo penoso; contudo, pouco a pouco, com descrever o seu modo de operação, ela vai perdendo força, como se a compreensão a neutralizasse. No fim, tem-se um texto: está ela ali exposta, talvez muito desagradavelmente; mas efetivamente diminuiu.