Algo que salta aos olhos nos grandes feitos mais recentes da humanidade, boa parte relacionada à tecnologia, é que nenhum deles possui grandiosidade comparável aos grandes feitos do passado. Tal se nota por serem os primeiros predominantemente feitos isolados da inteligência, para os quais não se exigiu maiores virtudes. Em contrapartida, temos os loucos dos séculos precedentes, cujas façanhas sempre começam por um inalienável risco pessoal. É verdade que, valendo-se de parâmetros distintos, é possível optar por aqueles, em razão de acarretarem transformações mais acentuadas. Mas não há talvez nenhum destes novos consagrados cuja mera ideia de embarcar num veleiro e meter-se com instrumental precário num mar tempestuoso, ou desbravar a pé um território desconhecido, não provoque o máximo terror.
Categoria: Notas
O que há de mais comum é julgar erroneamente…
O que há de mais comum é julgar erroneamente uma personalidade por simplesmente encontrá-la deslocada. É difícil, porém, percebê-lo, porque não se pode conhecer de imediato a essência de ninguém. Esta só se revela quando em condições propícias, as quais muitas vezes não consegue produzir. Daí se torna possível o contraste: o mesmo homem, num ambiente, pode exibir qualidades impressionantes, enquanto noutro pode provar-se abaixo do medíocre e passar uma lastimável impressão. Não importa o quão difícil seja, mas é preciso esforçar-se por não ser este homem, reconhecendo que aquilo que se mostra é exatamente aquilo que, naquele momento, se está a cultivar.
Os benefícios que a solidão proporciona ao intelectual…
Os benefícios que a solidão proporciona ao intelectual são conhecidos. Pode-se dizer, mesmo, que uma dose incomum de solidão é-lhe indispensável. Ocorre, porém, que às vezes não se dá importância devida à verdadeira bênção que são as boas companhias. Há quem nunca pôde desfrutá-las e, em resposta ao impedimento, teve de se decompor. Porque algo está evidente: a personalidade reforça-se quando usufrui da presença regular de seus pares; e tende a se enfraquecer se apenas consegue afirmar-se na solidão. A diferença é haver ou não um ambiente apto a acolhê-la, e tal ambiente só com muita sorte se consegue criar. Está, pois, em tremenda desvantagem aquele que se permite uma vida dupla para não abandonar de todo o convívio social: a sua face inferior, por quanto tempo viva, forceja por destruir o último resquício daquela parte nobre cuja maior glória possível numa existência consiste em conseguir que se faça manifestar.
A insatisfação com o tempo é compreensível…
A insatisfação com o tempo é compreensível porque ele parece sempre contrariar as expectativas. Quando se quer que ele passe logo, ele se mostra moroso; quando se quer o contrário, ele se mostra veloz. Assim que a espera é sempre demasiado longa, e os bons momentos fugazes. Oscila-se entre anseios que não se realizam e oportunidades que escorrem pelas mãos. A conclusão é que nada se pode aproveitar. No entanto, percebe-se com os anos que, embora não se consiga atrasar ou acelerar a passagem do tempo, sempre se consegue transformar em realidade a insatisfação. Não há outra lição a se aprender: tudo se encerra neste mínimo manejável, para o qual o esforço consciente deve convergir.