Se um autor pensar um bocado…

Se um autor pensar um bocado, descobrirá que possui, sempre, algo a ensinar a alguém. E se, em vez de seguir a irresistível tendência de imitar o que outros fizeram, centrar-se em ensinar, na medida de suas possibilidades, mas com sinceridade e pureza de intenção, aquilo que sabe àquele que não o sabe, terá, seguramente, ao menos um bom leitor. Mas acontece que, fazendo isso, descobre que sabe mais do que supunha, aprende mais do que antes sabia e consegue, de uma só vez, evoluir e criar algo de valor.

O problema em se escrever uma “ode ao fútil”

O problema em se escrever uma “ode ao fútil”, como o fizeram alguns poetas, é que, a partir do momento em que o leitor se depara com um poema assim, prosseguir na leitura significa aceitar o papel de interessado nas futilidades do autor. A maioria, decerto, o aceita, e o aceita entusiasticamente, e o tal poema talvez encerre a genialidade de aproximar-se, pelas letras, de um programa de televisão. Mas ocorre o seguinte: ninguém se interessa por programas da década passada, porque todo fútil possui este atributo que o condena ao esquecimento — é, necessariamente, temporal.

A ironia é uma delícia

A ironia é uma delícia. Irresistível, às vezes. E para alguns temperamentos, essencial. Mas é difícil não enxergar para onde tende, ou melhor, é difícil não enxergar os efeitos de sua prática regular prolongada na personalidade do praticante. Para entendê-lo, basta investigar de onde brota sua motivação. Há ironias que, em suma, edificam; outras degeneram. E tal se percebe não pelas reações que suscitam, mas pelo sentimento que o ironista alimenta dentro de si. Sentar-se sempre à mesa, centrar a vida na crítica mordaz é algo que só se deveria fazer com um objetivo construtivo e purificador.

Não parece nem um pouco seguro tentar…

Não parece nem um pouco seguro tentar estabelecer paralelos entre a aptidão física e a personalidade intelectual de escritores, e a prova disso é que, apenas pelo texto, dificilmente se tem uma pista daquela. Contudo, é muito interessante quando descobrimos que um escritor foi, também, atleta enquanto viveu. O fato é menos interessante pelas possíveis proezas realizadas, e mais pela importância do hábito atlético na rotina: pela necessidade, e pelo colher dos benefícios de exercitar-se. Há, decerto, exercícios e exercícios; contudo, é notório que, desde que executados com alguma intensidade, o trabalho depois deles flui muito melhor. A diferença é sensível: ao trabalho físico sobrevém um relaxamento, uma serenidade positiva para a atividade intelectual.