Algo além da mera conveniência

Toda profissão exige, a partir de um certo momento, algo além da mera conveniência para que seja bem exercida. Tal ocorre de praxe quando a novidade desaparece da rotina, tornando-se esta a execução de tarefas já executadas na véspera. Então, caso não haja um motivador para além daquilo que se aufere por executá-las, caso não se extraia alguma satisfação no próprio exercício diário, o ofício torna-se insuportável, o exercê-lo torna-se enfadonho, angustioso, torturante. Assim que parece ao insatisfeito ter de escolher, de duas, uma: abandoná-lo ou sucumbir. Não se pode, pois, dar outro conselho senão o de que uma profissão deve ser escolhida tendo em vista sobretudo a satisfação que dela se pode extrair: no fim, tudo o mais que dela se poderá obter estará atrelado à existência dessa possibilidade, ou não.

O início

Parece o resultado de todo projeto artístico fundamentalmente dependente do entusiasmo e do vigor com que é iniciado. O espírito com que se lhe impregna esta arrancada é-lhe determinante. Para um mau começo, pois, ou um começo débil, não há muito o que se fazer, enquanto um começo vigoroso se pode estender pelo trabalho braçal e pela simples disciplina. Por isso é tão importante que se faça a ideação separadamente, num momento que preceda o executá-la. Assim, pode-se aproveitar do insuperável estímulo daqueles momentos em que a ideia se mostra pronta e parece a explodir.

Diante do que não conhece…

Melhor faz aquele que, diante do que não conhece, cala-se em vez de duvidar. E se não sente confiança na percepção, e se realmente lhe interessa o objeto do desconhecimento atual, que estude, que escute e que, sobretudo, queira conhecer. E que assim permaneça por quanto tempo seja necessário, estudando, escutando e querendo. Um dia, talvez, conhecerá; e valorizará o conhecimento adquirido. Se, contudo, não vier a conhecer, ao menos se terá mantido numa postura que o jamais poderá envergonhar.

Quando investigamos a fundo tradições místicas…

Algo que se há de notar é que, quando investigamos a fundo tradições místicas, ainda que, a princípio, se nos pareçam algumas delas simplíssimas e superficiais, acabamos sempre encontrando algo rico e interessante. E então comparamo-las e vemos de quantas formas se pode chegar a conclusões semelhantes, e de quantas formas se pode chegar a conclusões diferentes, mas igualmente válidas e edificantes. Se proveniente de uma busca sincera e desinteressada, não há doutrina indigna de nossa atenção.