Os maiores lisonjeiros

De Marquês de Maricá:

Os maiores lisonjeiros são também ordinariamente os piores maldizentes.

A língua tem esta característica: se estimulada com frequência, perde completamente o controle de si. Quem se acostuma ao silêncio, pratica-o instintivamente; mas quem se acostuma à tagarelice, torna-se impotente para se calar. O cérebro como se vicia em transferir de praxe para a língua aquilo que irrompe na mente; e o vício, naturalmente, crava-se como necessidade. Para não avançar constatando que amiúde a lisonja e a maledicência partem de mesmíssima motivação…

Tão divertido quanto conscientemente violar…

Tão divertido quanto conscientemente violar todos e cada um dos ditames da nova polícia da linguagem é desagradável e penoso observar aqueles que a ela se curvaram. É divertido porque relembramos, a cada transgressão, do estúpido de tais ditames; e divertido porque manifestamos a nossa insubmissão à tolice. Quando, porém, acompanhamos o inverso noutra consciência, o que vemos é alguém que, por medo ou para agradar, sacrificou aquilo que lhe deveria ser o mais valioso: a liberdade. Menos que irritação, causa-nos pena observá-lo…

Leva um tempo para que o artista descubra…

Leva um tempo para que o artista descubra que a melhor arte que pode fazer é aquela mais íntima, mais genuinamente sua, e não a mais aclamada pela crítica. Leva um tempo porque, ao principiante, parecerá disparatada a ideia de que deve buscar a autenticidade, quando é principiante e, portanto, tem de aprender e tem de ainda se encontrar. Daí que a imitação, em maior ou menor medida, é um caminho natural e proveitoso. Mas chega o momento em que a prática evidencia suficientemente aquilo que é e não é próprio. Então, fica também evidente que a imitação, se muito, é um trampolim para a grande arte, e que esta não pode ser feita senão com a substância daquilo que mais agita a consciência individual.

Deveria bastar ao homem a certeza…

Deveria bastar ao homem a certeza de que é possível sentar-se, solitariamente, e experimentar nas letras uma realidade diferente da exterior, para que seu espírito se descolasse das angústias porventura geradas por esta. A partir do momento em que se compreende quão longe se pode chegar pela mente, a exuberância de possibilidades torna-se um lenitivo potente para a frustração proveniente das urgências, das necessidades e das amarras do mundo material.