A crítica é por vezes demasiado óbvia

A crítica é por vezes demasiado óbvia, e quando se limita a salientar aquilo que há de seguro, pode passar uma falsa impressão. O exemplo é aquele autor pouco conhecido, preterido por outras figuras de seu tempo, mas em cujas páginas percebe-se claramente o esforço original. Para passar uma imagem justa de sua obra, a crítica tem de destacar esta rara qualidade, que valoriza o todo e é sobressalente perante os defeitos. Nestes casos, se é para dizer algumas poucas palavras, é muito melhor que se limitem àquilo que não é comum.

É uma pena haver no Brasil um número…

É uma pena haver no Brasil um número tão expressivo de poetas talentosos mortos prematuramente. Alguns deles, com mais uma ou duas décadas de vida, certamente produziriam obras valiosíssimas. É o caso de Raul de Leoni. O que salta aos olhos em sua Luz mediterrânea é o esforço sincero por dar expressão àquilo que intimamente mais o comovia, a despeito da moda vigente: uma demonstração da consciência da própria individualidade e de qual caminho deveria seguir com maior proveito. Por isso, sua poesia foi original. Essa noção tão clara da própria posição, que sabe escolher os temas mais adequados e busca desenvolvê-los na forma que julgue justa, ignorando quanto estejam fazendo ou quanto certamente dirão, é uma qualidade difícil de encontrar, o mais das vezes só alcançada após sucessivos erros, e pouquíssimas vezes presente já nas primeiras criações. Sem dúvida, deste poeta sairia uma obra excepcional.

Nunca errará o escritor que se concentrar…

Nunca errará o escritor que se concentrar naqueles temas propriamente seus, ainda que deixe de lado outros tantos que poderiam tornar-lhe a obra mais abrangente. Por essa abrangência, às vezes paga-se o preço da dispersão. E como são notórios os trechos em que o escritor se manifesta com toda a intensidade de que é capaz, faz bem que neles se concentre, que em torno deles construa o que tiver de construir. Trabalhando desta maneira, mesmo os excessos passarão diminuídos pela sinceridade que naturalmente abundará numa obra que, conscientemente, alvejou o essencial.

A arquitetura americana pode não ser…

A arquitetura americana pode não ser a mais bela do mundo; contudo, nas cidades americanas sente-se um conforto incomum, mesmo naquelas áreas não favorecidas pela natureza, o qual se deve principalmente aos ambientes espaçosos que caracterizam o país. Não há vielas nem becos, as casas são construídas com grande recuo em relação à calçada, tetos altos constituem o padrão. Ruas largas, construções distanciadas, espaço livre para que corra o ar. Assim, nunca se tem a sensação de estar num lugar apertado. É possível que alguns séculos alterem tal fisionomia, mas não seria má ideia se o resto do mundo se inspirasse neste padrão.