Às vezes é difícil controlar o forte desinteresse para com a literatura e seus artifícios, o qual surge após um contato com o extraordinário numa história real. Vem à mente toda a crítica de Northrop Frye, sistematizadora de variadíssimas possibilidades criativas, divisões em gêneros, modos, usos particulares de símbolos, mitos, etc., etc. Tudo isso, enfim, assaz interessante, mas que parece nada diante de uma simples experiência real. Surge a pergunta: para que se lê e para que se estuda? E então percebemos que a literatura, como qualquer ciência, quanto mais as estudamos sob um prisma estritamente técnico, mais deixamos de lado aquilo que verdadeiramente justifica uma criação. Muito, muito difícil não querer mandar para o diabo todos esses expedientes e recolher-se para sempre ao silêncio e à meditação.
Categoria: Notas
Tão intensa quanto a vontade de estudar…
Tão intensa quanto a vontade de estudar e conhecer é a angústia experimentada naqueles dias em que o conhecimento possível parece irrelevante, limitadíssimas as possibilidades e insuficientes os meios de conhecer. E parece que o tempo só faz intensificá-las, à medida que a morte se aproxima e é preciso chegar logo a algumas conclusões. Agravam-se ao mesmo tempo a urgência e a sensação de tempo perdido, já numa fase em que se pensava poder-se apaziguar. Não há solução: é deixar que passe o fugaz nisso tudo e aproveitar ao máximo o impulso positivo, estimulante, quiçá um tanto ilusório, mas que não se esgota e traz sempre um motivo para querer acordar.
Tal como se nota nas personalidades individuais…
Tal como se nota nas personalidades individuais, parece muito conveniente fazer uma distinção, na literatura, que separe autores cujo espírito inclina-se ao conhecimento e autores cujo espírito inclina-se ao prazer. A poesia, mais do que os outros gêneros, evidencia tratarem-se de tipos muito distintos, nos quais os anos provocam transformações diversas, de maneira que, aos primeiros, a obra parece ser muito mais dependente desta evolução. Assim que a tendência é que estes produzam o melhor de sua obra no final, ganhando os primeiros livros um caráter meio que preparatório, de maior interesse para o biógrafo do que para o leitor comum. Já os outros, não é raro que a maturidade estrague aquela verve juvenil da qual dependem suas melhores composições.
O simples viver em ambientes distintos…
O simples viver em ambientes distintos pode produzir homens com experiências tão diferentes que, caso tentem, perceberão que não é possível estabelecer mutuamente uma comunicação. Nenhum deles conseguirá captar corretamente o sentido daquilo que o outro diz, e acabará por julgá-lo descabido antes que suspeite o problema poder estar em sua própria compreensão. A realidade, idêntica para todos, tem aspectos revelados apenas para alguns. E se, não por vontade própria, mas por uma necessidade qualquer, imprevista e incontrolável, a qual impede o desvio e exige a confrontação, alguns daqueles se acabam mostrando, o homem que os tem de confrontar saberá por experiência que são reais, possivelmente terá sua personalidade transformada para sempre; mas, ainda assim, talvez nunca consiga transmutar em palavras e convencer outro homem daquilo que vivenciou.