É um costume um tanto proveitoso…

É um costume um tanto proveitoso este de, rotineiramente, após concluída a tarefa, ou melhor, após atingida a meta diária estipulada previamente, não interromper a atividade e permitir-se ir um pouquinho além. O resultado mais óbvio é o pequeno ganho em produtividade. Mas, psicologicamente, tal costume produz algo melhor. Com a meta atingida, experimenta-se aquela boa sensação de dever cumprido; contudo, se a atividade não se encerra ali mesmo, lembra-se de que a meta só existe em função de um objetivo maior. Aproximando-se dele, ainda que apenas um pouco mais, aumenta-se a satisfação experimentada e se educa a mente, que, livrando-se de uma possível desculpa, acostuma-se a fazer sempre o mais que pode para chegar aonde quer.

Sem dúvida, qualquer estabilidade…

Sem dúvida, qualquer estabilidade seria impossível caso o impulso de mudar não fosse repetidamente freado por isto que às vezes se pode chamar de prudência, às vezes de medo, às vezes de pouca reflexão. À mente, porém, nada disso importa: o impulso se repete, os devaneios seguem-no milhares de vezes, e milhares de vezes encerram em qualquer coisa que não seja ação. O budismo sabe bem o fútil e irracional que há nestes devaneios e nessa movimentação incontrolável. Porém, algo tem de significar o impulso que se repete idêntico, o anseio que não se apaga e se intensifica com o tempo. Deixá-lo aparecer e ir-se tão naturalmente como veio… Muito bem, muito bem. Às vezes, contudo, a experiência faz brotar uma pergunta; e esta, hora ou outra, se há de responder.

É curioso de alguns rituais iniciáticos…

É curioso de alguns rituais iniciáticos, especialmente orientais, o representarem a morte e dissolução do passado, para então oficializarem a transformação do iniciado em um novo ser. Por um lado, poder-se-ia questionar se algo assim é realmente possível. Por outro, salta aos olhos que não somente é possível, como, em boa parte dos casos, o ritual não faz senão formalizar algo que efetivamente aconteceu. Muito em razão da psicologia do século XX, costuma dar-se uma importância exagerada e indevida à infância. Em verdade, não é raro que o adulto sequer seja capaz de recordá-la, a não ser uns poucos lances isolados, vagos e irrelevantes. Outros há para os quais a infância pouco significa, — a despeito do que diriam alguns psicólogos de uma só nota, — e não representa senão um período estranho, com experiências recordáveis, mas com as quais não se consegue estabelecer identificação. Há, porém, o dia em que algo acontece, o dia inesquecível, a partir do qual não se permanece como antes: às vezes, é a partir dele que deveras se começa a viver.

É só depois de muito tempo, e após presenciar…

É só depois de muito tempo, e após presenciar muitos rompimentos e muita frustração, que se percebe a verdade da lição: sem o idem velle, idem nolle, a amizade não prospera. E não o faz pelo bem, posto que, com o tempo, sem ele não fará senão estorvar. Quando menos se percebe, já se perdeu tempo, já se foram oportunidades, já se gastou energia e já se estagnou. Daí que não há fracasso mais previsível, quando o tempo não trata de alinhar ao velho princípio, e notá-lo é saber que há forças contra as quais não compensa lutar. Melhor, sem dúvida, é seguir os conselhos da inclinação natural, espontânea, que sem ter de gastar uma única palavra aponta a direção para a qual o espírito deve convergir.