Em literatura, é tão proveitoso variar o estilo quanto o é, na vida, variar o pensamento. O risco de não fazê-lo é viciar-se e diminuir-se, estreitando horizontes e fadando a próxima expressão a ser uma réplica da anterior. Em certa medida, variar o estilo é também pensar diferente, e o escritor que se acostume a fazê-lo se estará habituando a estimular o cérebro a não se contentar, acomodado, com aquilo que já concebeu.
Categoria: Notas
Como lidar com a inveja
Quando somos perguntados sobre como lidar com a inveja, com a maledicência e com a falsidade, é seguro estarmos diante de um jovem, ou de alguém de pouca experiência. “Lidar” é vocabulário de quem ainda se encontra atado ao jogo social e receia aparentar hostil. Em suma, não há “lidar” com a inveja, com a maledicência e com a falsidade. O que há é se afastar terminantemente de invejosos, de maledicentes e de falsos, já no primeiro e menor sinal, sem hesitação nem constrangimento. Para fazê-lo, porém, é preciso ter a personalidade muito bem consolidada, algo que só vem com os anos, e torna possível agir resolutamente e desferir este pontapé automático na conveniência.
A verdadeira personalidade
A verdadeira personalidade aparece quando se retira a máscara social. Muitos, por receio, passam uma vida inteira sem que possam assumi-la, ou sequer conhecê-la. Disso, o efeito mais evidente é a permanente insatisfação. Não há nada que, nesta vida, substitua o gosto proveniente da autenticidade; para experimentá-lo, porém, é necessário um ato de coragem, sempre disruptivo, de consequências, a curto prazo, o mais das vezes desagradáveis. Ocorre que, muito antes do que se espera, vai-se o choque inicial e sente-se como uma libertação de constrangimentos infinitos, todos eles decorrentes da infeliz tentativa de parecer aquilo que não se é.
Engana-se o escritor supondo…
Engana-se o escritor supondo que transformará sua arte carregando indefinidamente a mesma vida medíocre. É bom ter não mais que um canto para escrever e, temporariamente, ele basta. Também é bom ater-se e acostumar-se ao estritamente necessário para, sobretudo, distingui-lo. Mas para que haja transformação na arte, e para que seja esta verdadeira, é preciso operá-la também na vida, porquanto residem nesta as circunstâncias que motivarão sua obra, a menos que se traia. É necessário, pois, um esforço por modificar e moldar a realidade inteira, tanto quanto suas forças o permitam; e se dele não provierem resultados satisfatórios, será do próprio lidar consciente que brotará o melhor de sua motivação.