Há entre o misantropo e o seu tempo…

Há entre o misantropo e o seu tempo uma distância intransponível que se revela a cada tentativa de aproximação. O misantropo que abra um romance contemporâneo dificilmente conseguirá finalizá-lo, posto que será tomado gradativamente de um sentimento de repulsa que o forçará atirá-lo para longe, caso não queira submeter-se a uma tortura da qual nada tem a ganhar. De quem é a culpa? Certamente, não do romancista, que o mais das vezes não está senão cumprindo parte de sua obrigação para com o futuro ao descrever minúcias e particularidades. Mas não desce! Não há solução! Sua obra a cada passo, a cada cena suscitará sentimentos ruins que uma hora sufocarão o animal inadaptado, e este terá de abandoná-la, se possível esquecê-la. O misantropo é alguém deslocado no espaço e no tempo.

Damos mais valor a obras que…

Enfim, damos mais valor a obras que, sob uma perspectiva inteiramente subjetiva, geram um impacto maior. É esse o único parâmetro que nos importa deveras. Parece, também, ser o mais justo, posto que independente de nossas predisposições. Não podemos controlar aquilo que uma obra é capaz de gerar-nos, e disso percebemos que nada podemos fazer quanto à sua força. Assim, em última instância, ao nosso julgamento basta-lhe a sinceridade para admitir o quanto uma obra foi capaz de nos transformar.

Há linhas que, ainda que nos pareçam…

Há linhas que, ainda que nos pareçam repletas de absurdos, conduzem-nos o pensamento a áreas interessantíssimas e por vezes inexploradas. Por isso, faz bem que incentivemos a exploração do contrassenso: dele ocasionalmente extraímos o inédito e inesperado, e podemos chegar a paradeiros surpreendentes, ainda que não tenha sido esta a intenção do autor que está em nossa companhia. Faz diferença? Parece que não…

O início da vida adulta

O início da vida adulta é uma fase crítica porque o jovem se vê pressionado a tomar decisões de consequências duradouras sem que se tenha decidido com firmeza sobre elas ou, nalguns casos, sem que tenha personalidade o suficiente para assumir as próprias decisões. A isso soma-se o caso frequente de dependência financeira, que acaba acarretando uma submissão a conselhos e opiniões. Assim, quase sempre cede à suposta “sabedoria dos mais velhos”, quando esta em verdade é-lhe útil apenas enquanto esteja em conformidade com aquilo que verdadeiramente deseja para si. Do contrário, tais conselhos serão somente o empurrão ao abismo que lhe causará o mais severo arrependimento que já experimentou — arrependimento, porém, necessário para que amadureça, e perceba só valer a pena uma vida em que as consequências sofridas são frutos de escolhas pessoais. O divertido, em suma, é que na maioria dos casos bastariam uns poucos anos a mais para que as decisões fossem tomadas de maneira mais sensata; mas não, por algum motivo é preciso tomá-las precipitadamente, talvez por ser o próprio erro fundamental.