Esta biografia de Fernando Pessoa assinada por Richard Zenith dificilmente será superada por aquelas que porventura a sucedam. Em primeiro lugar, temos aqui um profundo conhecedor da obra, e não somente da vida de Pessoa. Parece óbvio dizê-lo, embora talvez não seja tão óbvio que a mais complexa tarefa em se fazer uma biografia de um intelectual consiste em narrar-lhe a trajetória intelectual. Para um artista como Fernando Pessoa, que tinha na própria multiplicidade sua maior virtude, a empreitada torna-se arriscadíssima. Mas Zenith a encara e apresenta-nos uma visão serena dos meandros da evolução intelectual do poeta, sem cair na tentação de conformar o biografado à sua interpretação pessoal. Os capítulos estão inteligentemente organizados e a narrativa, a princípio cronológica, permite-se avançar e retroceder no tempo, quando assim a temática demanda. E então vemos os detalhes, os belos detalhes que somente adquirem a devida importância quando contextualizados por um biógrafo competente, como a honrosa e comovente homenagem ao tio Cunha e sua inestimável contribuição em instigar divertida e criativamente a imaginação do pequeno poeta. Pessoa: uma biografia é uma obra digna dos mais sinceros elogios, e cujo autor provou-se merecedor de agradecimentos que ainda se estenderão por muitas gerações.
Categoria: Notas
Temas essenciais
É melhor a filosofia que, em vez de estender-se indefinidamente em novas temáticas, ande como em círculos, enriquecendo-se à medida que confere novas formas e novas nuances para uma meia dúzia de temas essenciais. Todo o resto não parece senão um distanciamento destes, e consequentemente um direcionar a atenção para questões cada vez menos importantes, até um ponto em que a reflexão perde o sentido e dá-se pelo simples prazer de refletir. Aqui, o verdadeiro filósofo estará morto.
Apesar do pessimismo…
O pessimismo é justificável; o que não parece sensato é, apesar do pessimismo, permitir-se viver uma vida cujos dias não sejam tomados de entusiasmo. Danem-se as circunstâncias! Se não por usufruí-las, que haja motivação para transformá-las! Que haja no acordar pelo menos uma oportunidade, e no fracasso da véspera uma lição. Se é para viver, que seja com ânimo e energia! O homem que, sentado sobre a própria racionalidade, negar-se esse mínimo, fará mais e melhor pela honra deixando de ser.
Uma ilusão, sempre que destruída…
Uma ilusão, sempre que destruída, origina um insulto. É por isso que o pessimismo, exterminador de ilusões por excelência, foi e será sempre insultado. Uma pessoa normal não pode defrontá-lo sem revolta, sem que se sinta agredida e injustamente espoliada. E não pode deixar de taxá-lo não como desagradável, mas como criminoso. Se não consegue refutá-lo com a lógica, que seja com a violência! Todo pessimista tem de estar ciente do efeito destrutivo de suas palavras e da reação que, em maior ou menor medida, naturalmente provocará. E então deve medir o quão forte é-lhe a necessidade de expressar-se perante as represálias que sofrerá. Racionalmente, é provável que conclua ser a primeira desnecessária; mas será infeliz se julgar-se obrigado a pagar nesta vida a dívida que contraiu com os inimigos das multidões.