É sempre perigoso ao artista…

É sempre perigoso ao artista equilibrar a necessidade de abrangência com a necessidade de não se afastar demasiado do essencial. A primeira é necessária por delimitar, queira-se ou não, a dimensão do próprio artista, cuja obra passará por míope ou viciosa caso não possua se não um equilíbrio, uma variedade que a aproxime razoavelmente daquilo em que consiste a vida e o mundo real. Daí que alguns, resolutos a vencer tal problema, acabam por perder-se em obras que menos agregam e mais descaracterizam a identidade do autor. Não há medida segura. O que é certo é que, assim como pode parecer cansativa a insistência em obsessões que não possuímos, desanima quando nos deparamos com obras nas quais não encontramos resquícios de um artista que julgávamos conhecer.

O que mata o homem é o orgulho

O que mata o homem é o orgulho; é ele que turva a visão e tolda o viver. A dignidade humana resume-se a fazer o melhor do possível, mas o possível ao orgulho nunca satisfaz. Dele brota um anelo insaciável e um descontentamento para com aquilo que basta para encher olhos modestos. Assim que representa o desgosto, a castração e o sepultamento do estímulo que, para muitos que jamais esperaram, provou que o possível às vezes é distorcido pela visão.

Quanto mais se compreende da vida…

Quanto mais se compreende da vida, mais se torna necessária a capacidade de aceitar limitações; em suma, mais se torna imprescindível a humildade. Curiosamente, parece a natureza dificultá-la à medida que mais se conhece, quando o conhecer é também necessário para aprimorá-la. Portanto, cultivá-la é agir racionalmente contra a natureza, que parece o maior obstáculo — e aquele cujo superar é mais importante — para o pleno desenvolvimento intelectual.

Aquele que toma consciência de que o tempo…

Aquele que toma consciência de que o tempo é a substância da vida conclui, por dedução, de que viverá tão melhor quanto melhor empregar o tempo de que dispõe. Então perceberá, primeiro, que não dispõe de tempo algum, senão o agora, e que portanto, estendendo a conclusão anterior, viverá tão melhor quanto melhor empregar o agora. O passo seguinte é o que frequentemente desalenta, e por vezes conduz ao suicídio. O bem empregar do agora está condicionado a meios apenas parcialmente controláveis e sempre sujeitos à roda da fortuna. Assim que, para alguns, é possível apegar-se a um tempo provável como aliado contra o mais que a fortuna se lhes pode interpor aos objetivos; para outros, porém, avessos ao indefinido, cuja sensatez exige o apegar-se apenas ao que há de certo, é insuportável o constatar que, de certo, há apenas a submissão à necessidade mais imediata.