É interessante observar o fenômeno em curso na educação superior. Na mesma velocidade em que as universidades vão se resumindo a fábricas de diplomas e, no caso da área de humanas, em ferramentas de doutrinação política, aumenta-se a procura por professores independentes, que lecionam aquilo que querem, aquilo pelo que são apaixonados e julgam fundamental, sem preocupar-se com diretrizes delineadas pelo órgão que seja, nem sobre se alongar com aquilo que os outros dizem importante. Assim, distinguimos claramente dois grupos: os sedentos por diplomas, e os sedentos por aprender. É difícil presumir que chegará o dia em que cursos lamentáveis como estes de humanas serão tidos universalmente como obsoletos, mas parece inevitável que, num futuro próximo, alguém capte tal tendência e funde uma instituição de ensino de grande porte que reúna tais professores e tais alunos, uma instituição que resgate a finalidade do ensino e, fornecendo ou não diplomas, porte-se da maneira que todas se deveriam portar.
Categoria: Notas
A agressão à liberdade de pensamento
É traço inconfundível das épocas tirânicas a agressão à liberdade de pensamento, que se manifesta sob a forma detestável da censura. Este delírio de submeter as almas a uma uniformidade felizmente jamais se concretizou, embora a violência empregada para concretizá-lo tenha alcançado sempre resultados patentes. A censura ideológica é um crime, injustificável sob qualquer ponto de vista; é uma vergonha em todos os séculos e uma condenação dos próprios valores em que se julga apoiar. Por isso a tentativa hodierna de curvar autores do passado à ideologia vagabunda que dominou o pensamento ocidental, submetendo as universidades e os meios de comunicação, será uma mácula permanente. Somente canalhas incuráveis encontram qualquer coisa de minimamente razoável em censurar aqueles que, mortos, não se podem defender; em lhes adulterar as palavras, falsificá-los e vender como deles linhas que jamais escreveram. Além disso, não há nada a se dizer.
Talvez nada seria tão benéfico à filosofia moderna…
Talvez nada seria tão benéfico à filosofia moderna quanto inserir exercícios literários na grade curricular das universidades; quer dizer, estimular os candidatos a filósofos a escrever pequenos contos, pequenos poemas talvez, forçando-os a transformar filosofia em literatura. Obviamente, tal exercício seria uma confrontação direta com aquilo que se tem hoje como a única maneira aceitável de se fazer filosofia. E por isso mesmo seria ele tão benéfico. Não se trata de vender ideias pela arte, algo abominável, mas de clarificar o papel concreto da filosofia, isto é, inseri-la em questões concretas, mostrar que há entre ela e a vida uma ligação fundamental, não se resumindo a primeira a um jogo de construções abstratas, um jogo inútil para aquele que busca respostas para questões reais. Sem dúvida, seria um exercício de grande utilidade para os estudantes.
A trajetória intelectual de Hermann Hesse
A trajetória intelectual de Hermann Hesse é admirável. Os “escritos póstumos de Joseph Knecht”, mormente “As três vidas”, são como uma síntese de uma vida inteira dedicada ao estudo, de uma longa imersão nas mais altas filosofias do oriente e do ocidente; uma síntese das grandes religiões e das grandes compreensões da realidade, partindo dos elementos mais simples aos mais complexos, da moral prática às abstrações do pensamento. E ver tais linhas provenientes do autor de Demian… Não foram poucos os que tentaram harmonizar o oriente e o ocidente no último século; mas pouquíssimos o fizeram com a beleza alcançada por Hesse.