Forçar o cérebro

Exercício extremamente útil: forçar o cérebro, chicoteá-lo. Digo e imagino-me diante dos originais latinos. De início, a sensação de esforço inútil; então a persistência, a obsessão: e as palavras, forçadas, preenchem-se de sentido. A técnica não é nova, muito menos original; útil desde os idiomas estranhos aos textos de essência abstrusa. O cérebro parece recompensar a insistência, trabalhar à base de pancadas, coação. E se, em seu fluxo vertiginoso de ideias, muitas vezes pode atrapalhar-nos, quando amarrado, compelido, trabalha com gosto a nosso favor.

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Alcançar a ventura

Perdendo as ilusões, aceitando a morte, libertando-nos dos grilhões pecuniários, rindo de nosso ridículo, orçando-nos a mediocridade, resistindo ao desejo, aceitando a frustração, aniquilando o orgulho, dedicando o tempo àquilo que nos preenche de sentido: assim alcançamos a ventura, ou melhor: podemos lambê-la, enquanto nos não seca a língua…

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A resistência dos burocratas

Admira-me a resistência dos burocratas. No mundo sobejam burocratas. Dez, quinze, trinta anos executando, exatamente, as mesmas funções, cumprindo os mesmos processos, satisfeitos e orgulhosos da própria experiência. O semblante grave ao trabalhar, as palavras que lhes saem transmitindo segurança, perícia, precisão. Versados em relatórios, formulários, requisições formais. Mestres em procedimentos, especificações, certificados, regulamentações, atas… Admira-me a resistência dos burocratas, pois me não imagino em semelhante universo senão em desespero, frustração extrema, desejoso da morte. Trinta anos preenchendo formulários? Por favor, por favor, dê-me da mesma cicuta de Sócrates…

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O ritmo das letras

Na prosa a pontuação, a extensão dos períodos, o encadaeamento dos parágrafos; na poesia, além da pontuação, a distribuição das tônicas, a extensão dos versos soltos e relacionados entre si: eis os balizadores do ritmo das letras. Já quanto ao ritmo: terreno arenoso, traiçoeiro; fera indomável; enigma maravilhoso e irresolúvel; perfeição visível mas distante, muito distante…

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