O anarquismo é nobre

O anarquismo é nobre enquanto manifestação de revolta perante as injustíssimas e usurpadoras relações de poder sobre as quais se apoia a sociedade. Homens como Stirner, Thoreau e Proudhon denunciam e arrasam toda a hipocrisia que reveste a argumentação fajuta que sustenta a exploração das liberdades. São homens que se recusam terminantemente a aceitar como normal um estado de abuso sistemático em que, de um lado, gozam uns poucos usurpadores e, de outro, sofrem os impotentes usurpados. Tais homens são, para dizer como Nietzsche, espíritos livres, que não pensariam duas vezes sobre preferir a morte a uma existência de desonra e escravidão.

As democracias modernas

As democracias modernas congregaram todos os meios mais ardilosos já fabricados pela mente humana e materializaram uma ode suprema e inédita à hipocrisia. Este sistema tão aclamado, cuja crítica é inadmissível e pode valer um lugar na cadeia, resume-se a uma tirania que somente se fortalece à medida que correm os anos. Uma tirania, portanto, um sistema legítimo, mas opressivo, injusto e cruel. O indivíduo, que dela absolutamente não participa, tem de engoli-la e financiá-la, ainda que diante de abusos e absurdos inaceitáveis, observando amordaçado e de mãos atadas a perpetuação de uma vontade manipulável e efetivamente manipulada por canalhas, uma vontade contrária aos seus interesses. Para tudo aquilo que um dia pareceu irrealizável ao mais deslavado dos tiranos, hoje, há meios seguros de execução, e assim parecem as almas, mais do que nunca, submetidas e incapazes de reagir.

Ter uma “causa” e querer impô-la

Há uma diferença notável entre ter uma “causa” e querer impô-la ao resto dos homens. É possível dizer, a princípio, ser tal diferença o caráter. Porém, também se pode dizer que, mais seja verdadeiro o sentimento inspirado pela “causa”, mais sejam seus “benefícios” claros na mente de quem a possui, mais será natural o impulso de querer que outros homens também a tenham, ou a “desfrutem”. Aqui, pois, chegamos à imposição. Não há como interpretá-la, independentemente de como se dê sua prática, ou de como esteja alicerçada, senão como uma violação primária, um ataque direto à liberdade do indivíduo. A imposição nunca será nobre e, após perpetrar-lhe a tirania, já não se poderá chamar homens livres aqueles que a sofreram.

Novamente Antero…

É impressionante como fui capaz de enxergar Antero através de seus versos. Leio-lhe uma biografia, e uma infinidade de fatos não descritos assomam-se a mim como óbvios — fatos que acabo confirmando na pena de outros biógrafos. Assim, compreendo-o inteira e perfeitamente, desde os tormentos íntimos à conduta; e se um Eça diz-lhe a convivência “fugidia”, embora “consoladora”, já sei os motivos, já deduzo o mistério que esconde essa postura aparentemente contraditória. Sei como Antero se sentia, e sei como lhe era pesado um fardo do qual não podia falar. É comovente vê-lo descrito por Eça, ver como impôs uma vitória esmagadora sobre seus conflitos interiores através de sua personalidade. E, finalmente…