O pensamento filosófico, quando não se reduz…

De Farias Brito:

O pensamento filosófico, quando não se reduz a uma mera técnica mental, mas tende a aprofundar-se cada vez mais na intuição da realidade, transforma-se naturalmente naquilo que os antigos chamavam “sabedoria”, tipo de conhecimento que traz em si mesmo o gérmen de uma transformação do homem todo, análogo, senão idêntico, ao domínio da contemplação pura, em que o sujeito se funde com o objeto universal, origem de todas as coisas.

Com isso, o grande filósofo diz o óbvio: a filosofia, para que não seja vã, deve ter uma finalidade prática, isto é, deve concretizar-se através de uma transformação naquele que a adota. Por este simples preceito é possível medir a fecundidade e a autenticidade de uma filosofia. Se não somos capazes de diferenciar, pela conduta, o filósofo de outro homem qualquer, se não podemos enxergar claramente os efeitos práticos de seu pensamento, estamos diante de uma filosofia estéril que não merece muito de nossa atenção.

O Eclesiastes é eterno

O Eclesiastes é eterno por ter constatado não haver novos vícios, nem novas esperanças, que o que se fez será novamente feito, e nunca haverá algo que já não tenha sido: em suma, as circunstâncias são diferentes, mas o homem é sempre o mesmo, e cai sempre nas fraquezas do passado. É ilusória a impressão que se tem de mudança com o tempo, posto que esta se limita a aspectos exteriores de uma realidade permanente. O homem é sempre o homem, e dele não se pode esperar senão que seja aquilo que é.

A vingança do homem comum

O que melhor caracteriza a modernidade é a vingança do homem comum sobre o homem de gênio. Em todas as esferas, são seus interesses que predominam; para onde quer que se volte os olhos, é sua face que se encontra em destaque. A vitória é completa. E exatamente disso deriva o sufocamento da cultura e das altas aspirações, que ora encontram uma hostilidade quase invencível para germinar. O homem comum as não tolera, e bate nas portas como missionário a fim de doutrinar. Talvez nunca tenha sido tão difícil e tão necessário um esforço para ignorá-lo e não se permitir contaminar.

Os pontífices da lucidez humana

Poucas obras suscitam gargalhadas tão sinceras quanto as destes “homens da ciência”, como Max Nordau e Cesare Lombroso, que se arrogam o papel de pontífices da lucidez humana e juízes supremos da sanidade mental. Enfim, é preciso admirá-los pela ousadia de empacotar os maiores gênios da história da humanidade, de Mozart a Shakespeare, e taxá-los todos de loucos degenerados. São eles os verdadeiros pais da psiquiatria moderna, que tem no bobo alegre o modelo perfeito de sanidade mental. Um homem comum facilmente identifica o original como doente, mas é preciso ser um visionário para enxergar na própria criatividade um distúrbio mental. Assim como palhaços talentosos, estes homens não merecem de nós senão aplausos efusivos e enorme gratidão.