Considero uma manifestação real de Deus em minha vida o ter-me livrado de centenas de páginas de interpretação da vida de Pessoa “through a Freudian lens”, martírio ao qual eu fatalmente me submeteria para conhecer um pouco mais da vida do poeta. Então tomo conhecimento da existência deste tijolo de mil páginas, de autoria de Richard Zenith e publicado recentemente, que já nas primeiras linhas aponta as conclusões do biógrafo freudiano João Gaspar Simões. Segundo este, “nostalgia for lost childhood and the pure happiness it represented is the key to understanding the man and his work”. Que vergonha destes discípulos de Freud! Que vergonha! E o incrível é não ruborizarem ao despejar tais conclusões assustadoramente rasas e previsíveis. Há, para o discípulo de Freud, duas únicas causas para toda manifestação humana: a infância e o desejo. Nada além disso é possível, e tudo pode por elas ser infalivelmente justificado. Assim que um homem que manifeste na vida a vocação religiosa, obviamente, seja o monge ou o santo que for, fá-lo pela frustração de não ser capaz de se relacionar com mulheres, ou pela sexualidade mal resolvida. Já um artista tem de celebrar-se pela devassidão, faz arte pela necessidade de expressar traumas infantis não superados. Em todo senhor de cabeça branca há, naturalmente, um pervertido interior que lhe constitui a essência… Que vergonha! que vergonha! É espantoso notar a pobreza da psicanálise! E obrigado, Deus, muito obrigado por livrar-me dos insultos que teria de confrontar em razão do apreço que tenho pelo enorme português…
Categoria: Notas
É interessante observar o fenômeno…
É interessante observar o fenômeno em curso na educação superior. Na mesma velocidade em que as universidades vão se resumindo a fábricas de diplomas e, no caso da área de humanas, em ferramentas de doutrinação política, aumenta-se a procura por professores independentes, que lecionam aquilo que querem, aquilo pelo que são apaixonados e julgam fundamental, sem preocupar-se com diretrizes delineadas pelo órgão que seja, nem sobre se alongar com aquilo que os outros dizem importante. Assim, distinguimos claramente dois grupos: os sedentos por diplomas, e os sedentos por aprender. É difícil presumir que chegará o dia em que cursos lamentáveis como estes de humanas serão tidos universalmente como obsoletos, mas parece inevitável que, num futuro próximo, alguém capte tal tendência e funde uma instituição de ensino de grande porte que reúna tais professores e tais alunos, uma instituição que resgate a finalidade do ensino e, fornecendo ou não diplomas, porte-se da maneira que todas se deveriam portar.
A agressão à liberdade de pensamento
É traço inconfundível das épocas tirânicas a agressão à liberdade de pensamento, que se manifesta sob a forma detestável da censura. Este delírio de submeter as almas a uma uniformidade felizmente jamais se concretizou, embora a violência empregada para concretizá-lo tenha alcançado sempre resultados patentes. A censura ideológica é um crime, injustificável sob qualquer ponto de vista; é uma vergonha em todos os séculos e uma condenação dos próprios valores em que se julga apoiar. Por isso a tentativa hodierna de curvar autores do passado à ideologia vagabunda que dominou o pensamento ocidental, submetendo as universidades e os meios de comunicação, será uma mácula permanente. Somente canalhas incuráveis encontram qualquer coisa de minimamente razoável em censurar aqueles que, mortos, não se podem defender; em lhes adulterar as palavras, falsificá-los e vender como deles linhas que jamais escreveram. Além disso, não há nada a se dizer.
Talvez nada seria tão benéfico à filosofia moderna…
Talvez nada seria tão benéfico à filosofia moderna quanto inserir exercícios literários na grade curricular das universidades; quer dizer, estimular os candidatos a filósofos a escrever pequenos contos, pequenos poemas talvez, forçando-os a transformar filosofia em literatura. Obviamente, tal exercício seria uma confrontação direta com aquilo que se tem hoje como a única maneira aceitável de se fazer filosofia. E por isso mesmo seria ele tão benéfico. Não se trata de vender ideias pela arte, algo abominável, mas de clarificar o papel concreto da filosofia, isto é, inseri-la em questões concretas, mostrar que há entre ela e a vida uma ligação fundamental, não se resumindo a primeira a um jogo de construções abstratas, um jogo inútil para aquele que busca respostas para questões reais. Sem dúvida, seria um exercício de grande utilidade para os estudantes.