Há implicações veladas na personalidade daquele que, pela filosofia, atinge a rigidez de caráter de um Sócrates, de um Sêneca, capazes de encarar a própria morte com serenidade e indiferença. A indiferença de alguém assim, na prática, não pode ser compreendida por aqueles que a não alcançaram, e por isso o discurso de tais sábios tende a machucar. Há algo de inaceitavelmente e assustadoramente antinatural nesta postura, que não solidifica senão após o aniquilamento de uma dimensão humana. Que seja sabedoria o blindar-se do mundo, o não ser afetado por nenhum de seus dissabores; mas este mármore imperturbável, esta materialização do pessimismo passivo, do não agir, não sentir, não querer e não sofrer, embora alcance uma vitória da razão sobre o instinto, opera, simultaneamente, uma mutilação humana, e talvez seja menos doloroso, para aqueles que o estimam e lhe estão em redor, que jamais se permita cantar tal vitória.
Categoria: Notas
Há uma flagrante injustiça…
Há uma flagrante injustiça na maneira com que Nietzsche é pintado tanto por seus oponentes quanto por seus admiradores. Parece todos se esforçarem para ver, em cada detalhe de sua biografia, as exaltações que lhe encontramos na obra. É como se o Nietzsche homem fosse privado do discernimento e contendesse diariamente na vida como o fazia filosoficamente. Enxergam, em cada traço de sua personalidade, um desequilíbrio doentio, querendo fazer-nos crer que não fora ele lamentavelmente assaltado pela doença, tendo esta progredido lentamente desde o seu nascimento. Negam-lhe a razão, e nas tendências naturais de qualquer homem cuja vocação é o estudo sério, nas manifestações naturais de qualquer homem que experimenta um conflito interior, veem transtornos mentais. Há estudos que o defendem! Homens modernos, modernamente saudáveis, garantem-no doente! Um homem, pois, incapaz de sentar-se numa mesa e comportar-se publicamente: um louco. Faltam palavras para direcionar a estes imbecis…
Aquele que se afunda em estoicismo…
Aquele que se afunda no estoicismo, nos moralistas franceses, na filosofia oriental e, especialmente, em Schopenhauer, deveria prestar uma única homenagem à sua humanidade sepultada: permanecer em silêncio e nunca, jamais expor a filosofia aprendida a um ser humano comum. É perfeitamente possível que se alcance a anulação do sentimento e o despego, a indiferença completa para com o mundo exterior; mas é preciso ser canalha para não experimentar um insuperável remorso após inocular tais filosofias numa mente inocente. Têm elas o poder de arrasar após causar um choque atrocíssimo para o qual não há cura nem volta. A imensa maioria das pessoas não está preparada e não merece ter a inocência destruída pelo peso de tais reflexões.
Nada há de menos poético e divino que o remorso
Nada há de menos poético e divino que o remorso, essa dor lancinante e invencível que se instala para machucar. Experimentá-lo é permitir que negreje a mente e a vista não capte senão o desagradável em tudo. É ele como uma força densa que puxa o espírito para baixo em todas as circunstâncias. Curioso confrontá-lo com a repetida recomendação budista de romper e destruir completamente os laços. Não me lembro tê-los visto discorrer sobre o remorso resultante do sofrimento gerado por tal operação. Talvez, estar-lhe-ão com efeitos e cura previstos nesta via infinita do aniquilamento de si mesmo. Não estou certo de que tal via conduza ao nirvana quando percorrida até o fim; sem dúvida, porém, sei que monstros ela é capaz de produzir…