My first wife, de Jakob Wassermann

É sempre um prazer entrar em contato com um espírito vivo como este Jakob Wassermann. Se procede a afirmação do historiador Peter de Mendelssohn que o romance traduzido como My first wife “is a work of exactest, most scrupulous autobiography”, “authentic to the last detail”, não podemos deixar de lê-lo com atenção especial. E não há, definitivamente, como travar gargalhadas em contato com as meticulosas descrições do estado de espírito do protagonista ao conhecer a mulher que lhe destruiria a vida. São descrições tão intensas que expressam, de uma só vez, sua turbulência psicológica, o desespero de sua situação e o remorso indescritível perante aquilo que está sendo narrado. É como se, a cada linha, ele se pusesse de cabelo em pé, absolutamente espantado daquilo que fez. Uma obra deste tipo não serve somente de desabafo ao autor: são linhas de um realismo tão forte que se convertem em experiências reais, também, para aquele que as lê.

El árbol de la ciencia, de Pío Baroja

Pío Baroja conduz esse romance de maneira admirável. É curioso notar como variam as manifestações de um Andrés, embora seja inevitável que um personagem como este afunde-se progressivamente em decorrência de sua incapacidade de deixar de pensar. O raciocínio, pois, produz um constrangimento que só se agrava com o tempo, enfim cristalizando numa declarada inadaptação ao mundo. Tudo isso é natural… Mas Baroja opera, no antepenúltimo capítulo, uma reviravolta impressionante na trama; um capítulo adiante já não cremos no desfecho que se parece desenhar. Então, habilidosamente, Baroja estraçalha a anormalidade e a história parece se encerrar de maneira mais natural, — e talvez mais convincente, — deixando Andrés, enfim, em paz com seus semelhantes.

Fazer bons versos é difícil

A verdade é que fazer bons versos é difícil: é preciso apuro, paciência, elevação de ideias… ao passo que, para fazer versos chamados bons, basta uma afinidade. Ocorre que ser exótico, em poesia, é por vezes cativante; por vezes diverte e até impressiona a novidade técnica; contudo, após algumas páginas, deixa esta de impressionar e fica evidente as paragens habitadas pela mente criadora. Se não há engenho, se não há grandeza, se não há profundidade, se lhe resumem os versos em brincadeiras e futilidades, tudo isso torna-se impossível de esconder.

A obsessão moderna com a sexualidade

A obsessão moderna com a sexualidade, que a reputa questão de primeira categoria e não consegue, não suporta meia dúzia de palavras que não evidenciem seu caráter primordial no ser humano, só faz validar as velhas, desagradabilíssimas e antipopulares afirmações de numerosos pensadores ao longo dos séculos que notaram distanciar mais o homem superior do homem comum do que este de um cão. Escancara-se, para dizer como Pessoa, uma diferença de qualidade, uma repulsa inevitável, e ao primeiro parecerão sempre desprezíveis e degradantes as preocupações do segundo.