Para atletas, nada há de mais frustrante que as lesões, sempre inoportunas. O que elas fazem é interromper a evolução e forçar uma pausa, a qual, se não respeitada, tende a agravar ainda mais a situação. Daí que, muitas vezes, o atleta tem de lidar com a perda de seu condicionamento construído a duras penas, enquanto repousa contrariado e observa seus companheiros e adversários progredirem. Pensa em quanto terá de se esforçar para recuperar o nível, sente toda a impotência perante a fisiologia, que lhe determina o tempo de recuperação. Afinal, não vê senão uma escolha para a recuperação plena e o retorno sem limitações: aguardar. A lesão, pois, o ensina a ter paciência. Se consegue superá-la, retorna mais maduro ao esporte: mais consciente, mais cuidadoso, capacitado a maiores provas. E cabe dizer o seguinte: a vida intelectual possui, também, as suas “lesões”.
Categoria: Notas
Certamente, não são de Góngora ou Lope de Vega…
Certamente, não são de Góngora ou Lope de Vega poemas como Salmo I, La hora de Dios, El buitre de Prometeo, Alborada espiritual, ¡Perdón!, Vencido, Las siete palabras y dos más, ou sonetos como Al destino, Fe e Resignación. E se, neles, Unamuno mostrou-se “mais filósofo que poeta”, qual seria, pois, a qualidade poética de que tais versos carecem? Ou ainda: em qual sentido a verve poética daqueles autores seria superior à de Unamuno? A verdade é que, nos referidos poemas, a expressão não poderia ser mais vigorosa, nem a motivação mais autêntica. E se isso não coloca Unamuno no primeiro escalão dos poetas espanhóis, talvez seja conveniente criar um novo grupo para inseri-lo — e será este o grupo dos poetas cuja leitura é mais significativa para o leitor.
Ortega y Gasset, Antonio Machado, Pío Baroja…
Ortega y Gasset, Antonio Machado, Pío Baroja… a literatura espanhola deu-me leituras memoráveis. Nenhuma, contudo, provocou-me sentimento parecido ao que experimentei após o contato com Unamuno, o qual pareceu-me um familiar. Há, nas letras, casos assim: uma fronteira separa a admiração, a empatia, o apreço, deste sentimento inconfundível de identificação. E é sempre especial ver num autor um membro da própria espécie, cujas inquietações são aquelas intimamente sentidas, cuja expressão vocaliza algo que se poderia dizer. Raro, mas quando ocorre evidencia que não há individualidade intransmissível; sempre houve e sempre haverá semelhantes que, através da literatura, possam compreender.
“O tempo passou”
Nem todos tem a sorte de experimentar nesta vida a pedagógica sensação de que “o tempo passou”. Esta, variável nas circunstâncias, costuma apontar as consequências de se ter postergado uma decisão. Contudo, há vezes em que vem demonstrando, de maneira muito clara, que efetivamente se decidiu. Isso se dá com aqueles que, depois de certa idade, observam os velhos conhecidos, alguns dos quais, até ontem, eram próximos, e percebem que todos eles tomaram um caminho, aceitaram o que a vida lhes oferecia, fizeram escolhas, prolongaram a obra de seus pais. São poucos os que podem experimentá-lo, pois são justamente os que não agiram conforme o esperado, transgredindo o curso natural da vida, rompendo com o padrão. Então, “o tempo passou”: já não se pode voltar atrás, nem integrar-se novamente no costume; decidiu-se sem o perceber. E quão rápido se dá tudo isso! Agora, tudo fica muito claro, e o afortunado que o experimenta pode, enfim, assumir para sempre a sua decisão.