Não parece nem um pouco seguro tentar…

Não parece nem um pouco seguro tentar estabelecer paralelos entre a aptidão física e a personalidade intelectual de escritores, e a prova disso é que, apenas pelo texto, dificilmente se tem uma pista daquela. Contudo, é muito interessante quando descobrimos que um escritor foi, também, atleta enquanto viveu. O fato é menos interessante pelas possíveis proezas realizadas, e mais pela importância do hábito atlético na rotina: pela necessidade, e pelo colher dos benefícios de exercitar-se. Há, decerto, exercícios e exercícios; contudo, é notório que, desde que executados com alguma intensidade, o trabalho depois deles flui muito melhor. A diferença é sensível: ao trabalho físico sobrevém um relaxamento, uma serenidade positiva para a atividade intelectual.

Talvez, somente a poesia seja comparável…

Talvez, somente a poesia seja comparável à historiografia no Brasil, ambas com uma longa tradição de autores de altíssimo nível, dos mais variados estilos e enfoques. E o curioso é notar que, apesar desta vasta e excelente bibliografia à disposição, o brasileiro comum desconhece por completo a história do Brasil. É uma dessas ironias paralisantes. O americano médio tem lá sua opinião sobre todos os grandes eventos da história americana: conhece-os, ao menos. E nos Estados Unidos, basta entrar em qualquer livraria, em qualquer das extremidades do enorme país, para constatar o seguinte: não há, em nenhuma delas, seção maior do que a de história americana. No Brasil, a despeito dos grandes autores, tal não se passa. E os grandes autores, é bom que se diga, são tão grandes quanto desconhecidos do público geral. Assim, ficamos nessa: a engrenagem da cultura já parece existente; falta, no entanto, que algo force o arranque do motor.

Às vezes é difícil vencer a sensação…

Às vezes é difícil vencer a sensação de vertigem e esgotamento que brota nestes momentos em que parece se mostrar a vastidão inesgotável do campo da literatura e das ciências sociais. Uma única leitura interessante coloca cinco, dez outras na lista de espera, as quais se multiplicam por outras vinte ou trinta, deixando o pobre estudante de joelhos diante da impossibilidade de lê-las todas de uma vez ou, pior, diante da justa expectativa de uma nova escalada exponencial. Mas, então, impelido pela necessidade, tem de voltar àqueles velhos princípios: o primeiro, aquele que ensina valorizar o momento; o segundo, aquele que recomenda começar pelo mais importante. Afinal, experimenta o alívio de que terá, pelo resto da vida, companhia de valor.

A diferença entre o intelectual jovem…

A diferença entre o intelectual jovem e o intelectual maduro é esta: o último tem coragem para assumir a responsabilidade pelo que diz. Parece pouco, mas não é. O jovem é, frequentemente, lógico e rebelde, é capaz de críticas ferozes e perspicazes; mas, o mais das vezes, não tem coragem de fazê-las expondo o seu rosto, nem atrelando a elas seu nome completo. Em suma: não tem coragem de assumi-las, muito menos de sofrer as consequências de sua provocação. O tempo passa, porém. E a temperança que costuma conferir pode enganar sobre este quesito: o intelectual maduro, embora pareça mais comedido, não tem medo de ir até o final.