Poucas coisas são tão deliciosas quanto planejar e antever, neste ato, tudo ocorrendo conforme o previsto. E então permitir-se navegar nas plácidas águas do otimismo, alegrando-se antecipadamente porque o planejamento haverá de correr bem. Que satisfação! O melhor é poder fazê-lo sempre, e sempre usufruir desta sensação expansiva e revigorante que só a inocência é capaz de entregar.
Categoria: Notas
A literatura não precisa de leitores
A literatura, ao contrário do que pode parecer, não precisa de leitores para que sobreviva. Em verdade, não precisa de nenhum leitor, nunca — basta-lhe um punhado de artistas verdadeiros. Enquanto houver alguém, como Pessoa, a enxergar num Antero um irmão de espírito, a literatura perdurará. E é indiferente que a humanidade desconheça tais homens, que a esmagadora maioria nunca lhes ouça uma palavra: basta que um deles nasça, e cumpra-lhe a missão de colocar mais um elo na corrente.
A chama da vocação
Talvez seja mesmo impossível explicar a um imbecil doutrinado na psicanálise, que dedicou a vida inteira aos interesses mais mesquinhos, cultivou as relações mais fúteis e jamais presenciou um ato nobre, um ato corajoso de assunção que contrarie aquilo que é conveniente o que é essa chama, esse impulso ativo que, uma vez manifesto no espírito, traça uma linha divisória na vida daquele que o experimenta. E é também inevitável que um sujeito como o primeiro utilize as lentes que possui para julgar ações alheias: de que outra forma poderia fazer? Assim que o próprio insulto é inevitável, e talvez tenha de ser perdoado por originário de uma incompreensão involuntária. De um lado, temos uma resolução inquebrantável, um espírito disposto às últimas consequências e a tudo largar pela missão que lhe parece a finalidade da existência; temos uma transformação por vezes tão completa que anula qualquer identificação com o passado. Do outro lado, temos um homem comum.
Nada há de mais cômodo para o inconsequente…
Nada há de mais cômodo para o inconsequente, para o covarde, para o imaturo e para o canalha do que as ideias de Freud, que reputam a ação humana ou a um impulso incontrolável ou a um condicionamento inconsciente, eximindo sempre o indivíduo da responsabilidade dos próprios atos. A culpa, pois, nunca está no ser que deliberadamente escolhe, porque este assim nunca pode fazê-lo, posto que é dominado por forças superiores das quais jamais se poderá libertar. O enorme sucesso de Freud deriva principalmente de ter ele estimulado sobremaneira a propensão humana à vitimização, infinitamente mais confortável que a trilha ingrata da maturidade. Se não fosse a psicanálise obscena, seria justo compará-la a uma avó incapaz de dar ao netinho inocente outro tratamento que não o de passar-lhe a mão na cabeça e dar-lhe um pedaço de pão de ló.