Quando lemos alguns economistas, parece a economia um problema tão lógico e tão simples que realmente assusta a estupidez daqueles que a regem no mundo real. Hoje, há uma quantidade mais do que suficiente de exemplos históricos de medidas econômicas que se provaram frutíferas ou desastrosas, de forma que, na imensa maioria das vezes ou, melhor dizendo, no que tange às diretrizes macroeconômicas, não poderia haver dúvida sobre como deve agir aquele que tencione a prosperidade. Mas então parece o pragmatismo teórico absolutamente inaplicável à realidade, em que interesses os mais diversos, quais mesquinhos, quais ingênuos, perversos ou irresponsáveis são colocados em primeiro plano, em detrimento daquele objetivo, já enfraquecido e distante, que deveria nortear todas as medidas econômicas. A conclusão é só uma: o elemento humano inviabiliza qualquer equação.
Categoria: Notas
O uso da tinta e do papel
É com grande entusiasmo que leio notas de escritores justificando, neste século, o uso da tinta e do papel. São os argumentos referentes à produtividade que mais me impressionam: para muitos, o ritmo cerebral parece ajustar-se melhor à escrita manual. Espanto-me por notar que, durante séculos, exatamente assim se fez literatura, por este método que é como avesso ao meu modo de escrever. Não há dúvida que há um certo charme, um certo encanto em ver a tinta no papel, em ver na caligrafia mais um traço da singularidade do autor, em ver a cadência natural da escrita à mão, pela qual lentamente as letras tomam forma, a ideia transforma-se em palavras e a criação mental concretiza-se materialmente. É tudo isso estimulante. Porém… que dizer? Afirmam tais escritores que a morosidade do método favorece a reflexão justa e, portanto, saem as palavras mais precisas. De minha parte, não conheço a escrita senão como um processo muito mais de destruição e reconstrução de frases: a mente, auxiliada pelo velocíssimo bater dos dedos nas teclas, jorra ideias desordenadamente na tela; o cérebro então raciocina e vai ordenando e modelando tais ideias, que vão sendo reescritas de maneira mais adequada. A cada duas frases, uma é completamente apagada e melhor conformada em nova tentativa; no fim do parágrafo, novas correções… Então fico aqui a imaginar que faria eu caso tivesse de adaptar-me ao papel e à tinta: e parece-me, mais do que nunca, justificada a sempre acesa fogueira de Kafka.
São sempre proveitosos os momentos…
São sempre proveitosos os momentos em que a mente se volta ao passado e arrisca uma síntese daquilo que perdura de quanto fez e viveu: amiúde é aqui que obras aparentemente inúteis provam seu valor; é aqui, também, que as futilidades rotineiras se expõem de maneira patente. Então é possível notar que há pouco de verdadeiramente resistente aos efeitos do tempo e, assim, revigorar prioridades que acaso estejam negligenciadas. Mas além disso: é quando o ânimo fraqueja e a esperança vê-se em frangalhos que tal exercício prova-lhe a maior utilidade — e a mente enxerga, por ele, algo que justifica o persistir.
Nada há de mais maçante, ao leitor moderno…
Nada há de mais maçante, ao leitor moderno, habitante da metrópole cinzenta, que a tal poesia pastoril. É impossível, para ele, prosseguir além de umas poucas páginas neste gênero poético que não é capaz de suscitar-lhe absolutamente nada. Tal ocorre, em primeiro lugar, por ser o leitor moderno carente da experiência de harmonia para com o meio, indispensável para que se possa abrir um poema pastoril. Tendo sido, desde o nascimento, bombardeado com a agressão visual que é uma metrópole; tendo sempre associado o ambiente comum ao perigo, à possibilidade de um assalto repentino, à sensação de desconforto, insegurança e medo, não poderá ele jamais compreender como pode alguém extrair satisfação do meio. Mas além disso: toda a sua existência foi moldada num ritmo completamente distinto daquele do poeta habituado ao campo, de tal forma que, entre estes, há tão poucas semelhanças psicológicas e comportamentais que se lhes pode dizer definitivamente estranhos.