É realmente espantoso a que ponto chegou a psiquiatria moderna! É quase como se fosse necessário um recomeço do zero, uma queima conjunta de todos os livros e o abandono completo de todas as classificações. Um homem que apresente qualquer mínimo conflito interior já está infalivelmente doente; quanto a isso não há discussão. E aí ficamos a pensar no estado vexatório em que a ciência se colocou. Não se pode concluir outra coisa senão que o homem está tanto mais saudável quanto menos pense, ou quanto menos o pensamento lhe influencie a vida; em outras palavras: a ciência da mente estipulou como modelo de higidez mental o homem cuja mente não atua. Há nisto algo de maravilhoso e inacreditável; é sem dúvida uma proeza das maiores e não cansa de surpreender. Alta para o bobo alegre e terapia para os antissociais, para os melancólicos, para os misantropos, para os sorumbáticos, para os solitários e para os silenciosos! Terapia para aquele que não consegue chegar em casa do trabalho e sorrir coçando a barriga diante de uma televisão! Terapia, e que troquem para sempre os doentes as obras filosóficas por livros de colorir!
Categoria: Notas
Não há como não se deixar tocar pela nobreza…
Não há como não se deixar tocar pela nobreza, pela beleza de uma educação conduzida por um homem probo e talentoso, posto que resultados maravilhosos se lhe podem derivar. Tal é, contudo, de tamanha raridade, que aqueles que se deparam com um exemplo real não podem senão perder-se em idealizações sobre como tudo seria melhor caso todos tivessem oportunidades idênticas à de alguns seletos iluminados. E então confrontá-lo com o mundo real… mas que fiquem para outro dia os lamentos: merecem o mais alto reconhecimento aqueles que honram essa nobre vocação.
Há implicações veladas na personalidade…
Há implicações veladas na personalidade daquele que, pela filosofia, atinge a rigidez de caráter de um Sócrates, de um Sêneca, capazes de encarar a própria morte com serenidade e indiferença. A indiferença de alguém assim, na prática, não pode ser compreendida por aqueles que a não alcançaram, e por isso o discurso de tais sábios tende a machucar. Há algo de inaceitavelmente e assustadoramente antinatural nesta postura, que não solidifica senão após o aniquilamento de uma dimensão humana. Que seja sabedoria o blindar-se do mundo, o não ser afetado por nenhum de seus dissabores; mas este mármore imperturbável, esta materialização do pessimismo passivo, do não agir, não sentir, não querer e não sofrer, embora alcance uma vitória da razão sobre o instinto, opera, simultaneamente, uma mutilação humana, e talvez seja menos doloroso, para aqueles que o estimam e lhe estão em redor, que jamais se permita cantar tal vitória.
Há uma flagrante injustiça…
Há uma flagrante injustiça na maneira com que Nietzsche é pintado tanto por seus oponentes quanto por seus admiradores. Parece todos se esforçarem para ver, em cada detalhe de sua biografia, as exaltações que lhe encontramos na obra. É como se o Nietzsche homem fosse privado do discernimento e contendesse diariamente na vida como o fazia filosoficamente. Enxergam, em cada traço de sua personalidade, um desequilíbrio doentio, querendo fazer-nos crer que não fora ele lamentavelmente assaltado pela doença, tendo esta progredido lentamente desde o seu nascimento. Negam-lhe a razão, e nas tendências naturais de qualquer homem cuja vocação é o estudo sério, nas manifestações naturais de qualquer homem que experimenta um conflito interior, veem transtornos mentais. Há estudos que o defendem! Homens modernos, modernamente saudáveis, garantem-no doente! Um homem, pois, incapaz de sentar-se numa mesa e comportar-se publicamente: um louco. Faltam palavras para direcionar a estes imbecis…