A evolução da poesia de Manuel Bandeira descreve, muito mais do que uma rebeldia estética, uma busca por autenticidade, um despojamento progressivo de adornos a fim de centrar-se no fundamental. É uma poesia que mais buscou livrar-se de artificialidades que inventar outras novas; uma poesia íntima, pessoal e sincera, original antes pela expressão de uma individualidade que pela forma — a forma, esta que o próprio Bandeira expressamente taxou de secundária e que parece, a alguns, constituir-lhe a essência da criação poética. É por isso que não se imita Bandeira: para fazê-lo, seria preciso sê-lo; uma honra que felizmente não será concedida a ninguém.
Categoria: Notas
Análises acadêmicas de poemas
Parece haver algo de errado, contraproducente e absurdo nestas análises acadêmicas de poemas, que dissecam os versos a ponto de ressaltar o efeito expressivo de cada uma das letras que lhes compõem as palavras. O contrassenso salta aos olhos quando defrontamos o resultado: infinitos parágrafos que mais escondem a essência dos versos que a elucidam. É curioso: enxergam estes acadêmicos antes aliterações, antes assonâncias que o próprio sentido das palavras que leem. Não há negar que tais recursos expressivos por vezes reforçam uma ideia; mas é isto que fazem: reforçam, resumindo-se a auxiliares. Chega a ser ridículo querer enxergar o analista intenção expressiva em sibilantes quando o autor limitou-se a usar palavras no plural, para não mencionar exemplos piores. Que é isso? Por fim, ficamos com a sensação de que o que há é uma tentativa de idealização do fútil em detrimento do essencial.
Voltando ao passado
É uma ironia divertidíssima a frutífera tendência, da parte das “novas ciências”, de voltarem-se ao passado em busca de fundamentação e respostas. Vemos, por exemplo, a psicologia, que tornou-se outra após Jung, muito mais complexa, interessante e efetiva, graças às profundas investigações que fez Jung em variados terrenos de variadas culturas antigas. E tal fenômeno não se limita às “novas ciências”, fazendo-se presente na literatura, na filosofia e onde quer que voltemos as lentes: parecem estar as respostas de que carece o homem presentes nos mais primitivos vestígios de sua existência, limitando-se a expansão de seu conhecimento a dar novas formas a conclusões — para não dizer verdades — já há muito percebidas.
A cela de Freud
Causa pena imaginar Freud encurralando-se gradativamente numa cela da qual, até o fim da vida, julgou impossível a libertação. O drama de Freud é não ter aparentemente partido do erro, mas sim de uma visão limitada que aprofundou-se e não se expandiu. Parece ele ter carecido de um mestre, ou ter-lhe sido a experiência repetitiva, pobre e insuficiente. É muito difícil não sentir pulsar a antipatia quando se analisa a obra de Freud em conjunto: é preciso serenidade para recordar que esta obra, também, encerra uma legítima tragédia individual.