Tradições e crise

Já foi notado, e com sabedoria, que em épocas de crise não resta a um povo senão apegar-se ao passado. No desespero da incerteza escancarada pela crise, emerge a tradição como um porto seguro, e assim aquela é vencida tanto mais facilmente quanto mais sólido for o passado de um povo, quanto mais estiver ele entranhado e presente no estágio atual. Disto é evidente que há nações mais e menos vulneráveis; impressiona, porém, quando notamos que as ditas menos vulneráveis, ainda que por um curto período, convertam-se na negação daquilo que sempre foram, parecendo romper com o elo histórico que as define. Automaticamente pensamos: e então, que será? Mas é curioso notar que, o mais das vezes, por conjunturas que talvez escapem ao raciocínio, surgem as tradições — sempre elas — revigoradas, e acabam como salvadoras de um futuro que parecia resumir-se no caos.

Não há nada mais ridículo que a importação do lixo cultural…

No ocidente hodierno, não há nada mais ridículo que a importação do lixo cultural produzido pelos Estados Unidos por parte de países que, em o fazendo, humilham a própria tradição. Henry Adams bem previu que se não poderia esperar algo bom oriundo de uma civilização ascendente à qual fora negada uma base histórico-cultural decente. E aí está… Todas as bobagens concebidas na América, com a velocidade impressionante da era digital, são instantaneamente exportadas para o resto do ocidente, que parece encantar-se com essa vexante embalagem de um inglês corrompido pela ausência da tradição inglesa. Quanto ao Brasil, é melhor nem dizer…

Um ano inteiro para tecer um punhado de versos!

Um ano inteiro para tecer um punhado de versos! E ainda não os finalizei!… A sensação é de uma lentidão inadmissível para alguém que tem na própria obra a raison d’être. Incomoda, e incomoda muito essa produtividade de tartaruga quando ao mesmo tempo as ideias parecem desesperadas a bater nas grades de uma jaula reclamando libertação. Querem elas inundar imediatamente os papéis, tal como também quero, mas não cedo e não largo a prudente recomendação de “um trabalho de cada vez”. Não há como ignorar a possibilidade de uma morte imediata: caso tal cenário se efetivasse, restaria, em extensão muito superior aos pouquíssimos versos que compus, um calhamaço desorganizado e quase incompreensível de anotações.

O desígnio da “grande obra”

Goethe, nas Conversações, lamenta o ter-se deixado seduzir pelo desígnio da “grande obra”. Diz saber o quanto ele o prejudicou e se arrepende de ter-se permitido bloquear a mente para suas valorosas manifestações espontâneas que, embora reclamassem atenção, tiveram de ser descartadas em prol do objetivo maior. Compreensível… não é difícil admitir que algo se perca devido a essa necessidade de concentração do esforço que é imperiosa para a criação de uma “obra de vulto”, como diz Goethe. Mas talvez seja um preço justo, como talvez seja arriscado apostar todas as fichas em uma obra fragmentária, de inspiração ocasional. Muito de Goethe deriva do Fausto, e se algo perdeu ele com criá-lo, ora, ganhou-o afinal! É muito difícil aderir integralmente à recomendação de evitar as “grandes obras” quando vemos que delas proveio o melhor de parte considerável dos grandes autores. Se, por um lado, é justíssima a observação de que são elas perigosas, e de que talvez não sejam indicadas à maioria dos artistas, por outro lado nalguns casos parece extremamente proveitosa a canalização dos esforços para uma única finalidade.