O velho debate

Diz Castilho:

Os versos de Filinto desagradam e martyrisam a qualquer ouvido, mesmo sem ser dos melindrosos; os de Camões commummente satisfazem; os de Bocage encantam; a estes, se alguma coisa se houvesse de reprehender seria a sua mesma perfeição excessivamente constante.

É verdade, é verdade: tecnicamente, Bocage não é menos que um mestre. Mas isso não empata a gargalhada diante desta conclusão que mais parece uma carta de amor. “Perfeição excessivamente constante”… Cabe-nos perguntar mais uma vez se o valor de uma composição poética resume-se à técnica ou se, porventura, configura-se a poesia como veículo expressivo de uma alma. Caso optemos por esta última hipótese, é forçoso concluir que a estirpe da alma que compõe versos, necessariamente, influencia o valor da composição. E que mais? Que uma alma nobre emprega-se em questões dignas de sua nobreza; expressa-as porque, para si, possuem elas um peso real e decisivo. Como chamar perfeita uma poesia corroída pelas paixões e preocupações mundanas? uma poesia incapaz de elevar-se a planos mais virtuosos? “Comumente satisfazem” os versos de Camões, enquanto os de Bocage “encantam”. Que conclusão!

A poesia de Antero de Quental

Ao diabo com essa sensação absurda! Posso, sim, apartar-me de Antero e julgá-lo. Vem a calhar a comparação com Bocage. Bocage é o artista pleno e isoladamente artista, o poeta tecnicamente impecável. O requinte de Bocage no trabalho dos versos o alça ao topo da língua portuguesa. Porém, não posso julgar Bocage superior a Antero. Digam quanto quiserem… Antero preenche sua arte com filosofia ou, melhor dizendo, a arte é-lhe a expressão poética do raciocínio crítico. Não se dá o mesmo em Bocage. As agonias, os tormentos, a visão altaneira e a inquietação metafísica transformados em versos por Antero exibem uma união entre forma e ideia que impressiona por parecer completa, satisfazendo as necessidades do espírito. Bocage, o grande embora somente poeta, não é capaz de raciocinar friamente, isolar a ideia; falta-lhe a veia do filósofo. Mas, antes disso, seus versos se ocupam de temática vistosamente ordinária. O resumo: a poesia de Antero de Quental, embora salpicada de falhas, é a expressão de um espírito superior.

Os sonetos completos, de Antero de Quental

Começaria assim esta nota: “Em Os sonetos completos, de Antero de Quental, pela primeira vez senti-me diante de composições portuguesas que me pareceram rebentos de mim mesmo”. Incrível! E sinto-me inapto a criticá-las, posto o fazê-lo, de uma estranha maneira, parece-me fazer a crítica de minhas próprias composições. Por quê? Meu primeiro impulso é pensar: são os poemas de Antero lugares-comuns? Excetue-se ali algo de sua juventude, de jeito nenhum! Como, então, sinto-me expresso por inúmeros de seus versos? Esteticamente, penso, há notável diferença entre nossas composições: o discurso, sobretudo, sai-nos de forma distinta. E então? Concluo, após muito refletir, que os tormentos de Antero são os meus. O conflito psicológico de Antero é idêntico ao que experimento. A expressão de Antero é o corolário das sendas que percorri. E mesmo o olhar de Antero ante a existência parece guardar enorme semelhança com o meu. Incrível! E pensar que Antero, no fim de tudo… deixemos isso de lado.

Desgostos e maturidade

Poder-se-ia definir maturidade como a postura daquele que sofreu desgostos o bastante para perder a esperança infantil característica dos imaturos, não houvesse aí a noção implícita de que sucessivos desgostos acabam, hora ou outra, frutificando em maturidade. É impressionante o contraste: há naturezas que, como o vinho, são refinadas com o tempo; já outras… quão mal o tempo lhes faz! À medida que correm os anos, aumenta-se progressivamente o ridículo de cair em puerilidades; e há quem jamais as supere, senão tombando de mais altos penhascos, e a cada queda reforçando-lhe as convicções! São casos tristes, dignos de compaixão sincera, sobretudo porque a vida, de quem não lhe assimila as lições, não costuma se compadecer.