As emissárias do bom senso

Tão abundantes e tão antigas são as narrativas que expõem minuciosamente a perversa e regular opressão operada pela maioria contra indivíduos isolados, desamparados, que padecem como mártires jamais desagravados pela história, que parece absurdo, ainda hoje, as maiorias serem tidas como emissárias do bom senso. Desta mentira clamorosa, seria de se esperar que os homens se livrassem, ainda que por necessidade ou pudor. Curiosamente, o contrassenso persiste e se fortalece. Como justificá-lo? Explica, Carlyle! como conciliá-lo com a tua teoria de sepultamento de mentiras? O que parece é que, neste mundo, a injustiça não faz senão trocar de máscara ocasionalmente.

É fabuloso notar que o homem ordinário…

É fabuloso notar que o homem ordinário, fazendo metodicamente aquilo que não quer, não viva a empregar-lhe todas as forças numa tentativa de romper esse ciclo desagradável. Parece a faculdade de enxergar possibilidades não ter sido distribuída equitativamente entre os homens. Raríssimos são os que sentem pulsar a desonra em se rendendo ao conveniente. Disto, que concluir?… ser natural apanhar inerte em vez de mover-se por livrar-se das pancadas? Oh, ser racional!

Cada época dispõe de um par de lentes peculiar

Embora, essencialmente, a tragédia humana repita-se no decorrer dos séculos, são notórias as variações de cenário, personagens e enredo. É como se cada época dispusesse de um par de lentes peculiar. Por isso o artista, em cumprindo a justa recomendação de “pertencer ao seu tempo”, deve ter muito cuidado para não perder de vista o atemporal. Em mesma medida, as particularidades de um cenário podem gerar interesse e fastio: tudo depende da proporção com que elas se balanceiam com traços que não se desgastarão com os anos.

O médico celestial

Diz Camilo, em passo borbotoante de inspiração:

Há um médico celestial, que Deus põe à beira de cada enfermo das doenças perigosas do espírito: não médico, antes anjo deverei chamar-lhe, anjo que sustém nas mãos candidíssimas a urna dos bálsamos, colhidos nas flores do Evangelho. É o TRABALHO.

(…)

Com o andar do tempo, amoleceram as durezas das religiosas dos Remédios.

Davam já mais largas à reclusa, e esqueciam-se de vigiá-la. Como a viam tranquila e afreimada em seus lavores, entendiam avisadamente que as tentações do demónio dificultosamente pegam da pessoa laboriosa: é por isso, diziam as senhoras lidas em vidas de santos, que os anacoretas faziam cestos de vime no deserto, impenetráveis escudos, e não cestos, contra as frechadas de Satanás.

Não é a solidão que rasga e dilacera: o duro, para o homem, é ver-se privado de distrações. Trabalhar! E, assim, desviar o espírito do confronto pungente que a maioria é incapaz de suportar. Isso, ainda que deixemos de lado as famigeradas “tentações”. É verdade, é verdade: estas linhas saem como que uma adaptação forçada; mas, conquanto não médico, Camilo era sagaz o bastante para perceber um sintoma desta mesmíssima doença e apontar-lhe um remédio eficaz.