Alguém disse, sob aplausos, nenhum homem ser uma ilha. Muito bonito, muito bonito… Mas, infelizmente, a afirmação é falsa: há, sim, homens-ilha — e os mais diversos. É verdade: há no homem um impulso que o impele ao convívio; impulso, porém, que pode ser aniquilado com o tempo. Os anos passam, as personalidades se consolidam, os interesses mais separam do que unem — por vezes abrindo um vácuo intransponível entre o homem e o meio. Não é correto afirmar que há um senso de pertencimento comum a todos os homens, como não é correto supor que todo homem encontre afinidades. Assim, é natural que haja homens que se tornem ilhas, quer por força, quer por volição. Há aqueles que, por defesa, vestem uma máscara social — embora acessíveis, são em essência ilhas impenetráveis; — há, também, aqueles cujo aspecto exterior não abre espaço para dúvidas. Enfim, para não ser uma ilha basta não reprimir o naturalíssimo impulso gregário; mas essa, dado momento, é apenas uma das escolhas possíveis…
Categoria: Notas
O budismo provavelmente acerta…
O budismo provavelmente acerta ao dizer que há estados conscientes pelos quais passamos antes do nascimento: a evidência disso é a manifestação lúcida de todos os bebês imediatamente após o primeiro suspiro. Se não nascem herdando a consciência de um estado prévio, pode ser que recém-nascidos sejam visionários, e com isso justifica-se o nascerem todos chorando, aos berros, desesperados, como enxergassem o princípio de uma senda de aflições e tormentos. Impressiona notar-lhes a sabedoria e o conhecimento desta terra. Contudo, em poucos anos de adestramento perdem completamente a lucidez…
Um efeito difícil de ser igualado
A métrica e, sobretudo, a regularidade rítmica entregam um efeito difícil de ser igualado através de outros recursos expressivos na poesia. Parecem ambas afagar e cumprir as exigências do cérebro, enquanto este concentra-se em desvelar o sentido das palavras e interpretar as variações sintáticas dos versos. Na poesia regular, pequenas variações rítmicas, atraindo a atenção para si, por vezes logram enfatizar palavras e reforçar a expressividade de alguns trechos do poema; contudo, quando o padrão rítmico se rompe ostensivamente, o distúrbio causado parece desviar a atenção da mente daquilo em que ela se deveria concentrar — o efeito, em suma, é esteticamente desagradável. O ritmo, uma vez apreendido, gera uma expectativa pela sua continuidade — e é difícil satisfazer o cérebro negando-lhe o que ele parece pedir.
Um inimigo do povo, de Henrik Ibsen
Talvez essa peça peque pela obviedade. Mas convém perguntar: como não ser óbvio em se tratando de personagens como o povo, os políticos e a imprensa? Figuras tão previsíveis quanto lamentáveis… O enredo não guarda surpresas: um homem honesto, um pensador livre, é esmagado pela tirania abominável da massa, essa “satânica e compacta maioria”, apoiada pelo conluio oportunista entre os abjetos poderosos e os vassalos da opinião pública — os temerosos da rejeição. Dr. Stockmann é, como todos os espíritos superiores desde que se entranharam no ocidente as ideias repugnantes do filósofo de Genebra, vítima de adversários tão numerosos que convém classificá-lo como absolutamente só. Não há neutros contra dr. Stockmann: há covardes coniventes pelo silêncio e covardes agressivos, que apedrejam-no camuflando-se “sob o manto da multidão”. Demasiado óbvio… A mensagem da obra, porém, é irretocável: o que se oponha à tirania vigente será caçado até a morte! Acaso o título da obra soasse melhor, em vez de “Um inimigo do povo”, como somente “O inimigo”. Mudo de ideia: talvez seja justamente a obviedade o brilho da peça: pois ela mostra o que, via de regra, sucede aos Stockmanns da vida real — exceção feita, é claro, ao quinto ato da peça, exageradamente otimista para alguém que a lê mais de um século após sua publicação…