O grande drama daquele cuja vida encerra um tormento existencial…

O grande drama daquele cuja vida encerra um tormento existencial é não haver para suas interrogações respostas válidas senão as que ele próprio valida. Como suportar? Adicione-se ceticismo à inquietação existencial, e tem-se o desespero certo. O cético tende a rejeitar as repostas possíveis para perguntas incômodas e não verificáveis: disso deriva seu infortúnio. Ele não pode aceitar o que diz a religião, o esoterismo, o misticismo; ele é programado para rechaçar aquilo que não experimentou. É possível abrir um livro de astrologia e encontrar respostas satisfatórias para tudo; é possível reconfortar-se na salvação cristã, no livramento budista — mas não para aquele que se recusa a acreditar. Toda inquietação existencial conduz a um dilema: credenciar pelo conforto aquilo que se recebe sem provas cabais, ou atirar-se em aflição sem limites. Alguns, como Pascal, adicionam à crença uma dose de raciocínio; outros parecem fadados à insatisfação.

Quem mira grandes empresas, tem de começar pelas pequenas

Quem mira grandes empresas, tem de começar pelas pequenas. Só assim poderá se preparar para aquilo que almeja. O planejar acarreta esta vantagem: evidencia, de antemão, as dificuldades, apontando também o caminho a se percorrer. Em literatura, faz bem o candidato a romancista especializando-se, primeiro, em construções menores, autônomas e que encerrem arcos dramáticos simplificados. Pequenas unidades, temática direta, singeleza estrutural. Na cabeça, a despretensão característica daquele que sabe-se aprendendo, que sabe-se no início de um longo processo. Assim chega, com o tempo, o traquejo no trabalho da velocidade, na representação de estados de alma diversos e na impressão de efeitos dramáticos potentes. Chega após muitos testes, muitas falhas e muitas lições. Para se preparar a grandes empresas, é prudente o esforço contínuo pela eliminação da sorte.

A leitura de místicos

Leio místicos com verdadeiro prazer. Místicos: homens que proclamam ver o que não vejo, que argumentam com aquilo que não posso comprovar. E prazer, é claro, por saber-me eliminando até o último vestígio a presunção ignorante que caracteriza o homem deste século responsável por moldar-me. Alegra-me constatar que possa haver outros com faculdades que não possuo, que não represento o modelo humano em plenitude de capacidades. Lê-los, a mim, é sempre uma lição de humildade.

Nota futura

Tenho a nota pronta, mas ainda não posso escrevê-la… Oh, ansiedade! Venha, tempo! Já imagino o prazer, a alegria em transcrever-me a frustração nestas palavras: o russo é muito, é infinitamente mais fácil que o latim! Ler Dostoiévski e Tolstói no original é brincadeira perto de compreender Tácito, Virgílio, Ovídio etc., etc. Venha, tempo! Não posso esperar por esta publicação! Só de pensar em meu dicionário latino quero rasgá-lo, queimá-lo, atirá-lo para longe, eliminá-lo para sempre da minha vida. Já não suporto essa muleta, sem a qual não avanço um parágrafo em autores clássicos… E o russo… que dizer do russo? Aguardemos…