É indescritível a sensação de ver, em cores, uma orquestra de primeira linha a tocar. Digo ver e já não sei se deveria ter dito sentir. O dispêndio de cifras incríveis para mantê-la justifica-se por ser uma orquestra de ponta, a depender de onde esteja inserida, quase que uma salvação cultural. Sentindo-a conclui-se: há esperança. Presenciar, simultaneamente, dezenas de homens que lhes dedicam a existência à arte; que, após longos anos de estudo e prática intensa, treinam, treinam e treinam para, numa curtíssima apresentação, transmitir a quem a vê o gênio de espíritos que atravessaram os séculos, espíritos nobres e imortais. Notar a sutileza de movimentos sincrônicos, precisos e carregados de sentimento; calar-se e deixar-se guiar por uma melodia sublime; experimentar um contato direto com algo belo: uma experiência desta natureza eleva moralmente o público que a vivencia.
Categoria: Notas
Liberdade das próprias ideias
Há vinte e seis séculos atrás, já notava Lao-tsé que a liberdade das próprias ideias é a marca do “homem moderado”, como diz minha tradução inglesa. Poderíamos alterar este adjetivo para prudente, sábio, superior. Se há um traço que distingue naturezas baixas, imaturas e que não evoluem, é o apego àquilo que pensam e acreditam. Deste apego, — destas correntes, — que não pode ser interpretado senão como manifestação da vaidade e de uma estúpida presunção, correm os dias e o tempo não faz aprimorar o ser engessado, o ser hostil a tudo quanto lhe é novo e diferente. Moderação, se fôssemos defini-la na acepção utilizada neste trecho do Tao Te Ching, diríamos ser a capacidade de ceder e aceitar o diferente — virtude inimaginável para o presumido que se reputa o centro do universo.
O leitor ideal
Reviso-me as notas e sorrio de minhas irritações. A verdade é que me considero, modéstia à parte, o leitor ideal. Quando abro um livro, a última coisa que desejo é irritar-me com o autor. Concedo-lhe liberdade total para dizer o que quiser, criar do absurdo ao ridículo, romper todas as barreiras morais e mais quanto achar que deva para expressar o que tenciona. O que não tenho — e orgulho-me disso — é uma cartilha para exigi-la de quem leio. Escolho, conscientemente, leituras que aparentam contrárias ao que aparento pensar. E mesmo assim, mesmo com essa abertura quase ilimitada, acabo sempre encontrando quem me atice os nervos…
Não há página vã em Tolstói
Leio páginas e páginas de Tolstói e a mente parece questionar-me: “Por que tanto tempo despendido em outras bandas?”. A sensação é de que, em Tolstói, não há página vã, estamos sempre ante personagens que confrontam o essencial. Confrontam, isto é, raciocinam, enxergam e julgam as circunstâncias que os rodeiam; por vezes, deixam-se agir irrefletidamente, então amargam as consequências psicológicas, remoendo o passado. Passado! este, sempre, objeto de tortura, fonte inesgotável de lamentos… Mas o que mais parece impressionar nestas construções tão vivas, tão cheias de verve e sinceridade, é a inserção minuciosa de detalhes que as dotam de realismo, tornam-nas mais que convincentes. E pensar na mente que pariu esses milhares de páginas douradas… é inclinar o tronco e tirar o chapéu.