No primeiro volume de Casos, os rasgos selvagens, a dramaticidade e a violência beiram o absurdo. Talvez, terei eu feito uma homenagem de estilo àquele de quem herdei o formato. Já no segundo volume, retirei o sangue, afrouxei os arcos dramáticos e, estruturalmente, experimentei escrever quase sempre sem amarras, mantendo porém o formato, a ver se as narrativas sairiam mais naturais. O resultado? Vacilo em concluir… Certamente, foram narrativas menos impactantes; mas, talvez, mais espontâneas e sinceras.
Categoria: Notas
Maravilhas deste século
É uma verdadeira maravilha poder encontrar, em poucos cliques, do fim do mundo, áudios em línguas mortas pronunciadas conforme o falar original. Penso no estudo dos idiomas em séculos passados. É inevitável enxergar-me privilegiado. Por muito tempo li inglês desconhecendo-lhe a pronúncia correta: um erro crasso e comprometedor — e só o compreendi quando coloquei-me a ler poesia. Em poesia, desconhecendo-se a pronúncia, não se compreende contrações que porventura ocorrem, por vezes a métrica aparenta confusa e, principalmente, ignora-se a sonoridade dos versos que, em muitos casos, é fundamental. Em The raven, por exemplo, pronuncie-se aberto o “o” tônico fechado que se repete fechando todas as estrofes do poema, e vai-se-lhe o efeito carrancudo, a ideia e o sentimento sugeridos pelo fonema. Nevermore, nevermore, nothing more, nothing more… Temos aqui, ainda, um “r” que, na pronúncia inglesa, como que prolonga e amplifica a vogal antecedente. Disso a conclusão óbvia: para compreender a expressividade de grandes poetas, é indispensável conhecer a fonética do idioma em que compuseram. E, neste quesito, o leitor deste século só peca por desleixo.
Os versos de Augusto dos Anjos
Constato, sinceramente, que o prazer estético que experimento ao ler os versos de Augusto dos Anjos é comparável ao que sinto ao ler Camões, Dante e qualquer outra sumidade poética. O engraçado é que, tecnicamente, a poesia de Augusto atropela todas as convenções: sinéreses a cada verso, palavras de pronunciação dificílima, e por aí vai. Mas as imagens vivíssimas e brilhantes que se revelam a cada estrofe, a expressão explosiva, a surpresa ao enxergar relações inesperadas e originalíssimas entre temas aparentemente desconexos, tudo isso parece gerar um efeito mais potente e determinante que as convenções estéticas. Em Augusto há um desespero, um pessimismo exacerbado que beira o ridículo mas materializa, contudo, um brilhantismo sem-par.
Especulações metafísicas
Dizem os teosofistas, para meu divertimento, que é dada ao homem a liberdade de escolher o seu local de nascimento. Minha mente voa… Pouco interessa a veracidade desta curiosa revelação: o divertido é raciocinar sobre a hipótese. Imagino-me, diante de uma entidade suprema, apontando, no mapa do mundo, a cidade em que nasci. Infinitas opções e, por volição simples, escolho uma cidade do interior de São Paulo — cidade de que não me resta uma única e solitária lembrança. Quero crer que a entidade tenha me apresentado outras bandas, exposto desde seus aspectos geográficos até culturais e que, mesmo assim, eu tenha escolhido nascer onde nasci. A pergunta seguinte é: por quê? Parece-me razoável uma única justificativa: meu orgulho — e corrijam-me os teósofos se são possíveis manifestações do orgulho nestas esferas da existência — deve ter pensado em algo como: “provarei ser capaz de desenvolver-me num ambiente hostil à minha natureza”. Muito bem! Será mesmo que, entre todas as possibilidades, eu e minha mente analítica, após meditação longa e cautelosa, tenhamos julgado esta a mais interessante? Ou talvez, se é vero o que dizem os teósofos de nascermos e renascermos numerosas vezes, eu tenha enjoado de praias paradisíacas, arquiteturas variadas, altos IDHs e todo o resto? Não, não, “enjoar”, não… Que concluir?