As religiões sempre medraram em meio a intenso conflito

Foi algum teosofista que disse as religiões terem surgido adequadamente, cada qual à civilização em que irrompeu. Parece uma afirmação demasiado poética, que implica uma harmonia universal só existente na fantasia, e refutada violentamente pela história. Antes de civilizações, há indivíduos, e a estes geralmente não é oferecido um cardápio de crenças, para que eles escolham conscientemente a mais adequada a si mesmos — pior seria julgá-los essencialmente adequados ao próprio meio. O correto seria dizer que as civilizações moldaram as religiões que em si floresceram, sendo elas apropriadas ou não. As religiões sempre medraram em meio a intenso conflito, verdadeiras batalhas quer a nível social, quer individual. A primeira prova de uma religião é sobrepor-se às crenças anteriores. Disso extrai-se o óbvio: tivessem nascido as religiões tão perfeitamente adequadas ao meio, teríamos paz, e não, como evidencia a história, uma progressiva e violenta “adequação”.

A vocação exige afirmações regulares

Graças a Fernando Pessoa, tenho percorrido caminhos que jamais imaginei. Avanço sobre as repulsas, sobre os receios, sobre o desinteresse, e vejo-me oscilando entre indiferença e curiosidade. Uma curiosidade intelectual, é verdade. E então? Então que se me abriram possibilidades, digamos assim, e o horizonte intelectual do poeta mostrou-se-me mais vasto do que julgava. A vocação exige afirmações regulares e variegadas, tem de fortalecer-se mediante elementos diversos da realidade, isto é, tem de afirmar-se por eles, absorvendo-os em si. E parece-me que os insólitos caminhos trilhados por Pessoa contribuíram sobremaneira para que ele se convertesse no que é — noutras palavras, para que ele atingisse um grau raríssimo de afirmação.

Quando a certeza não é possível

Quando a certeza não é possível ou, acaso, seja questão de índole, é preciso que o homem tenha coragem o suficiente para agir orientado por indícios. Um indício envolto em espessa penumbra tem de sê-lo satisfatório, é mister que ele se apegue ao pouco que tem — do contrário é trancar-se na inércia. Encontrar, pois, o indício! Encontrá-lo e agarrá-lo firmemente! Seguir-lhe o caminho sugerido e amparar-se na possibilidade — porque é esta, sem dúvida, melhor do que o nada.

 

Por mais irracional e desconfortável que seja…

Por mais irracional e desconfortável que seja, é forçoso, para aquele que vê, admitir que há coincidências tão acachapantes, tão incrivelmente expressivas, — embora por vezes de significado obscuro, — que o negá-las ou sequer calar-se sobre elas parece indigno do apreço à honestidade. “Coincidência” é termo incorreto, “acaso” uma justificativa que afronta a inteligência capaz de uma matemática simples, que logo taxa-o de absurdo inadmissível, o maior dos absurdos possíveis. Disto, lamentavelmente não se tira conclusões seguras, não se extrai certezas que esclarecem cabalmente o mistério, mas parece mais nobre dizer o que é visto com as palavras concebíveis em vez de negar o patente por incapacidade de expressão.