Da história para a metafísica…

É muito mais produtivo saltar de um Sartre para um Swedenborg, fechar a Bíblia e abrir os Upanixades, passar da história para a metafísica do que empanturrar-se do mesmo alimento, restringindo o horizonte do intelecto e privando-o de se imergir em diferentes matérias, valores e estilos. Oscilar entre extremos buscando pelo valioso de tudo e absorvendo-o tanto quanto possível: com essa técnica, até o cérebro mais renitente é forçado à evolução.

A ironia do pensamento racional é exigir tacitamente uma conclusão

A ironia do pensamento racional é exigir tacitamente uma conclusão. Do contrário é declarar-se inútil, constatar que não avançou. E a conclusão é justamente o impossível, o passo em falso e a derrota! Concluindo perde-se o jogo, sepulta-se de antemão possibilidades futuras, declara-se o fim da atividade mental. Disto extraímos: se é para falhar e desistir, que se falhe e desista tarde, somente diante do pressentimento do decesso e se tomado de um impulso irresistível. Schopenhauer, uma mente brilhante, prejudicou-se ao fazê-lo muito cedo: teria tido dias mais tranquilos caso não houvesse caminhado, por quase a totalidade da vida adulta, carregando o peso de suas conclusões.

O desconforto de existir

A perturbação psicológica e a guerra aberta contra as manifestações instintivas da mente são os passos primários e fundamentais para que se alcance qualquer avanço de cunho moral ou espiritual. Portanto a angústia, efeito colateral inevitável, é traço comum entre as naturezas nobres. Os passos subsequentes variam de Buda a Tolstói, de Schopenhauer a Nietzsche — mas é impossível a evolução para um espírito que nunca experimentou o desconforto de existir.

O escritor que se atrevesse a criar um personagem como Jakob Boehme…

Se um sapateiro deu luz a centenas de páginas de interpretações metafísicas… Fico pensando: o escritor que se atrevesse a criar um personagem como Jakob Boehme cairia no ridículo. É inevitável. O raciocínio não admite tamanho contraste; recusar-se-ia inevitavelmente a creditar a narrativa. Não obstante, aí está… A primeira objeção da mente seria: “Um pensador dessa estirpe se não rebaixaria nunca a um trabalho manual”. Em seguida prosseguiria, insuportável como de costume: “Tais reflexões só brotam de uma natureza cem por cento devotada ao espiritual”. A conclusão: “História estúpida e falsa”. De idêntica maneira, julgaria caso defrontasse um Boehme vivo e falante. Nisto mede-se a vastidão da miséria do pensamento objetivo.