Embora, como está dito, a boa literatura…

Embora, como está dito, a boa literatura seja sempre mais ou menos autobiográfica, é inútil buscar obsessivamente em seus detalhes o paralelo com a experiência do autor. O mais das vezes, as experiências servem somente de gatilhos, de motivos, de ilustrações para algo que as extrapola na obra. Não é pouco, e é mais que suficiente. O resto é a exploração e o aprofundamento das possibilidades que permite a literatura, mas que por vezes a vida não permitiu.

O efeito mais evidente da politização da cultura…

O efeito mais evidente da politização da cultura, cuja principal manifestação é a arte, é a inibição da criatividade. Em literatura, o resultado são obras que podem tudo, menos surpreender o leitor. E aí se coloca o problema: embora uma obra, para que seja boa, não necessariamente tenha de se destacar pelo caráter surpreendente, a previsibilidade, quando absoluta, é simplesmente intolerável. Uma obra cujo desenrolar já está previamente determinado por uma ideologia, seja ela qual for, é uma obra morta, e mortos estão de antemão os artistas que voluntariamente se trancam neste caixão.

Algum filósofo notou ser a obra filosófica…

Algum filósofo notou ser a obra filosófica a repercussão de um lampejo único e decisivo, a partir do qual facilmente se delimita um antes e um depois. Tal lampejo é decerto observável; mas o curioso é que ele, ocorrendo de praxe antes dos trinta, aponta somente o caminho, o incontornável caminho, mas não assegura para onde este conduzirá. Pelos trinta, não há como negar, faz-se filosofia mais ou menos como se faz literatura: registrando e discorrendo sobre impressões. Estas, ainda que verdadeiras, ainda que determinantes, parecem pedir tempo para cristalizar. Quer dizer: a admirável, a impressionante segurança com que se expressam alguns filósofos de cabeça branca quase nunca é igualada por filósofos mais jovens, o que parece sugerir que o grande filósofo descobre-se cedo, mas só se realiza após um longo tempo de maturação.

O artista boêmio é uma falsificação

De Pío Baroja:

Los pintores —añadió Larrañaga con aire agresivo— serían los menos inteligentes de los artistas si no existieran los escultores, los músicos y los cómicos, que son la quintaesencia de lo cerril. La mayoría de ellos son unos patanes llenos de suficiencia. Nada tan aburrido como un artista. Es más ameno hablar con la portera o con un tendero de comestibles. El pintor y el bohemio, como tipos amenos, ingeniosos y espirituales, son falsificaciones de nuestra época.

Não há negar: a boêmia deu ao mundo uma meia dúzia de gênios e, por cada um deles, o mundo produziu uns bons milhares de imbecis. Tais rodas, todos sabem, formam-se sempre de pretensos artistas, e acolhem, esporadicamente, um ou outro digno do nome. Mas este, tão naturalmente como as visita movido pela curiosidade, logo as abandona motivado pela desilusão. Perda de tempo, esterilidade e presunção. Nestas rodas, a arte não é senão pretexto, tal como noutras o futebol, a vida alheia ou a política. O artista boêmio é, mesmo, uma falsificação.